Setembro / outubro de 2007
  • CAPA
  • Eficácia de um sistema de inovação depende de profissionais altamente qualificados
  • Especialistas identificam a necessidade de formular uma agenda nacional para intensificar o investimento em recursos humanos voltados à pesquisa
  • Por Sabine Righetti
Natura: programa leva pesquisadores da universidade
para trabalhar dentro da empresa
Foto: Divulgação


O discurso da inovação tecnológica começa a sair do âmbito das legislações, das formas de financiamento e das metodologias para mensurar a capacidade inovativa das empresas, e atinge um ponto nevrálgico: a formação de recursos humanos. Agora, a demanda por profissionais qualificados em todos os níveis — de cientistas e engenheiros, a técnicos e pessoal de apoio — é o gargalo mais identificado na instalação de um verdadeiro ambiente de pesquisa e desenvolvimento nas empresas. Em números gerais, o país vai bem: forma anualmente 10 mil doutores e 35 mil mestres, capacitados nos mais de 2 mil programas de pós-graduação vigentes, a maioria mantidos por verbas oficiais. Mas, nos corredores, as empresas reclamam a falta de profissionais aptos às suas necessidades tecnológicas, e a academia se ressente da não absorção pelo setor privado dos doutores recém-formados. Para os especialistas, é preciso focar em políticas de formação de pesquisadores, ajustados às carências de inovações tecnológicas do mercado.

Apesar do crescimento no número de programas, há problemas no tipo de aperfeiçoamento dos recursos humanos. Um dos aspectos principais é o perfil dessa formação: cerca de 70% dos doutores formados no país estão na área das humanidades, profissionais dificilmente absorvidos diretamente no setor produtivo privado. De acordo com dados do IBGE, coletados na Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec) de 2003, do total do pessoal ocupado em pesquisa, desenvolvimento e inovação (P,D&I) no Brasil, 31,9% eram de nível médio; 48,5% tinham nível de graduação; e apenas 8,1% tinham nível superior naquele ano.

Na opinião de Guilherme Ari Plonski, do Núcleo de Política e Gestão Tecnológica (PGT) da Universidade de São Paulo (USP), a absorção de doutores não originários das áreas de engenharia e de exatas nos setores é possível fora da concepção clássica do que seja o setor industrial. "Nas indústrias criativas, por exemplo, há inovação em segmentos que também precisam de outros tipos de doutores". Plosnki exemplifica com o desenvolvimento de software, onde é preciso profissionais qualificados em diversas áreas do conhecimento, como linguística, comunicação e computação.

Plonski coordena trabalho sobre recursos humanos para ciência e tecnologia em um dos comitês temáticos da Associação Nacional de Pesquisa, Desenvolvimento e Engenharia das Empresas Inovadoras (Anpei), o que demonstra que a temática já ganhou atenção inclusive nas entidades de classe. Em estudo apresentado na reunião anual da Anpei, em junho, em Salvador (BA), foram identificadas alguns problemas no quesito recursos humanos para P&D no país, dentre elas: gargalos na parceria entre centros de pesquisa, desenvolvimento, inovação e universidades; falta de treinamento específico para P,D&I; e necessidade da definição de um percurso de carreira especial ao profissional que trabalha em pesquisa e desenvolvimento (o que pode desestimular o trabalho em pesquisa). Para ele, a necessidade de formação de uma agenda nacional voltada para RH é clara.

Sem partir do zero

A idéia, de acordo com os especialistas, é articular os movimentos que já existem na agenda política atual para construir uma política forte. Entre os movimentos atuais estão as novas legislações, como a Lei de Inovação, de 2004, que possibilita um ressarcimento de aproximadamente 40% dos encargos sociais de um doutor contratado por uma empresa — o que acaba funcionando como um desconto nos impostos — e a Lei do Bem, de 2005, que concede benefícios fiscais principalmente no setor de software.

Plonski lembra ainda que o governo tem feito um excelente papel em gerar pessoas qualificadas. Mas, como lembra a pesquisadora Léa Maria Strini Velho, do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) do Instituto de Geociências da Unicamp, é necessário que a política de formação de pesquisadores seja uma componente da política de inovação. "O que existe atualmente é um sistema de formação de pesquisadores que não privilegia áreas do conhecimento e que responde a critérios estritamente acadêmicos"

A receita para formar recursos humanos altamente qualificados se baseia principalmente no investimento para que mais jovens tenham acesso à educação superior, na criação de programas de pós-graduação de qualidade e no estímulo de um ambiente favorável à pesquisa, tanto pública quanto privada, por exemplo, com auxílios (bolsas) atrativos.

A receita funciona bem em países como Estados Unidos e europeus. Já no Brasil, o cenário não é o mesmo. Há um evidente descompasso entre o número crescente de titulados em pós-graduação e sua absorção pelo setor privado. Segundo dados do IBGE, aproximadamente 70% da pesquisa nacional está concentrada no setor público. Nos EUA esse perfil é inverso: são 70% no setor privado e quase 20% no setor público. O padrão europeu acompanha essa tendência: países como a Alemanha, por exemplo, tem cerca de 65% da pesquisa no setor privado, 18% no setor público e 15% nos institutos públicos. "Isso não ocorre no Brasil porque os vínculos com o setor produtivo ainda são fracos", considera Léa Velho.

Para Marco Antonio Zago, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o impulsionador principal na política de aumento da contratação de pesquisadores pelo setor privado deve ser o governo. Nesse sentido, é necessária a criação e articulação de mais programas como o RHAE-Inovação, inicialmente criado no Ministério da Ciência e Tecnologia, há dez anos sob a coordenação do CNPq. O programa absorve 12% dos recursos do CNPq e tem como objetivo oferecer bolsas de estudo para treinar pesquisadores, engenheiros e técnicos de nível médio qualificados a desenvolver projetos em empresas e realizar pesquisa estratégica em universidades. No último edital de 2006, foram aprovados 41 projetos para uma demanda bruta de cerca de 500 propostas.

"A criação do RHAE representou o reconhecimento pelo Sistema Nacional de C&T da necessidade de implementação de mecanismos voltados para a capacitação tecnológica de recursos humanos em apoio ao desenvolvimento tecnológico", explica. Para submeter um projeto, é preciso que a empresa indique que o bolsista possa ser incorporado à empresa ao término da bolsa.

Para Zago, o problema está na consolidação da pesquisa no Brasil, que nasceu e se fortaleceu nas universidades e alguns institutos, enquanto o setor privado ficou em segundo plano. "O país sempre foi carente de políticas que estimulassem e subsidiassem o desenvolvimento de pesquisa nas indústrias e empresas", afirma. De acordo com os especialistas, a demanda crescente por profissionais qualificados no setor privado, que absorve atualmente cerca de 20% da pesquisa nacional, deve ser crescente nos próximos anos.

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Revista Conhecimento & Inovação
ISSN 1984-4395

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