Abril / maio / junho de 2010
  • Elevadas taxas de juros atrapalham a inovação no Brasil
  • Ana Paula Morales

Resultados de pesquisa apresentados na 24ª Convenção anual do Ciesp, na última sexta-feira (30), revelam os principais obstáculos econômicos e culturais para a inovação no país.

A ideia de que investir em inovação é importante parece ser consensual entre os empresários brasileiros. No entanto, diversos obstáculos impedem que os investimentos sejam de fato realizados. “As elevadas taxas de juros têm sido um freio no investimento, e principalmente no investimento em P&D”, diz José Ricardo Roriz Coelho, diretor do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp, órgão responsável pela pesquisa Obstáculos à Inovação, cujos resultados foram apresentados no seminário Inovação como fator de competitividade, realizado durante a 24ª Convenção Anual do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), na última sexta-feira (30).

O objetivo do estudo foi identificar e examinar os principais obstáculos à realização de inovações tecnológicas pelas empresas industriais. “No Brasil ainda há pouca cultura de investimentos em P&D, que são encarados como gastos, e não investimento”, afirma Paulo Skaf, presidente da Fiesp, na abertura do evento.

Dentre as dificuldades apontadas pelas empresas que participaram da pesquisa, as elevadas taxas de juros aparecem como um dos principais obstáculos à inovação, com 58% de indicação. Segundo Roriz, o investimento privado em inovação no Brasil previsto para 2010, gira em torno de R$18,4 bilhões, o que representa 0,58% do PIB nacional – taxa ainda abaixo da meta da Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP), de 0,65%.

Na pesquisa, os juros entraram na categoria “Riscos econômicos” que, segundo as empresas, exigem maior esforço de superação (40%), até mesmo quando comparado aos “Problemas relacionados ao financiamento” (31,5%) e “Elevados custos” (31,1%). As “Dificuldades na obtenção de informações” (21%) e “Fatores internos à empresa” (6%) tiveram uma representatividade menor.

Para Skaf o Brasil está num cenário econômico muito positivo, e 2010 se configura como um ano promissor, com possibilidade de crescimento de até 7%. “Estamos num momento propício para a retomada do desenvolvimento do país, mas para isso precisamos tirar as pedras do caminho”, diz, apontando para a importância de reformas estruturais e tributárias para o aumento da inovação tecnológica nas empresas brasileiras.

Cultura de inovação

“As empresas inovam quando o mercado demanda. A inovação é um fenômeno econômico”, afirmou Carlos Américo Pacheco, professor do Instituto de Economia da Unicamp, na mesa redonda Estrutura de Apoio e Recursos Disponíveis à Inovação, no mesmo evento. Para Roriz, no entanto, a demanda eventual não é suficiente: “A inovação tem que ser feita de forma sistemática”, defende. A fraca cooperação entre empresas, universidades e governo, segundo ele, é o problema.

Para Carlos Vogt, Secretário de Ensino Superior do Estado de São Paulo, a aproximação entre o setor produtivo empresarial e o setor de pesquisa, ou seja, as universidades, além de ser uma necessidade, é uma barreira cultural a ser quebrada. “A criação de uma cultura inovativa é o grande desafio que temos que enfrentar”, diz.

A universidade já tem procurado os caminhos para criar a ligação entre o público e o privado, segundo Oswaldo Massambani, coordenador da Agência de Inovação da USP. “Nós precisamos de interlocução, de alianças mais fortes entre os nossos laboratórios e as indústrias”, afirma. Para Pacheco, “na relação universidade-empresa, o fluxo de pessoas é o fundamental”.

Os parques tecnológicos se configurariam como uma ponte para essa relação, trazendo vantagens tanto no aspecto cultural como econômico da inovação. “Com o parque tecnológico, o pequeno e médio empresário pode fazer contratação sem trazer os ativos trabalhistas de contratação direta”, diz Pedro Primo Bombonato, coordenador de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Desenvolvimento do Estado de São Paulo. Além das questões de fluxo de pessoas, Bombonato afirma que a relação poderia ser incrementada se ajustado o tempo de pesquisa entre a universidade e o setor produtivo.

O questionário da pesquisa Obstáculos à Inovação foi enviado a 11.778 empresas do Estado de São Paulo, com a solicitação de que avaliassem o grau de importância dos obstáculos apresentados. Responderam 334 empresas (2,8% do total), sendo 59% pequenas, 30% médias e 11% grandes.

Veja no site abaixo a pesquisa completa do Decomtec/Fiesp.

http://www.ciesp.com.br/ciesp/conteudo/decomtec_convencao_ciesp_2010.pdf

 

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Revista Conhecimento & Inovação
ISSN 1984-4395

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