Abril / maio / junho de 2010
  • VOANDO ALTO
  • Programa FX-2 de modernização de caças da FAB pode contribuir para o avanço da indústria nacional
  • Transferência tecnológica possibilita inovação com risco menor
  • Enio Barbosa
O favorito Rafale
Foto: Divulgação


Em 1998, a Força Aérea Brasileira iniciou o programa FX-2 para substituir os aviões Mirage e F-5, da década de 1970, e o AMX, dos anos 1990. A polêmica se instalou quando, no ano passado, o presidente Lula declarou que o Brasil havia decidido comprar o caça Rafale, da França, em razão da promessa de “transferência irrestrita” de tecnologia para o país. Mas como, de fato, acontece a transferência de tecnologia de um país para o outro e qual a importância desses processos para a indústria nacional? Mais do que obter uma máquina de guerra, o programa FX-2 foca na autonomia para a fabricação de um avião moderno e que deve levar a reboque a renovação e melhoria de diversos setores da economia e da pesquisa nacional. O conceito chave que definirá a escolha desses aviões de caça é a chamada TT, sigla para transferência de tecnologia. O processo de TT é garantia de que o investimento feito para um cenário hipotético de guerra se transforme em um projeto de modernização na área de pesquisa e desenvolvimento, paralelamente à capacitação de diversos setores industriais do país que poderão, em alguns anos, voar alto no cenário global.

Transferindo a complexidade

“O conceito tradicional de TT é que seria possível transferir o conhecimento tácito, adquirido ao logo de uma vida, de qualquer tecnologia, pois tudo seria codificável e, portanto, passível de replicação a partir de determinados planos e códigos”, explica Sérgio Queiroz, pesquisador do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) do Instituto de Geociências (IG) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “É um conceito que reinou até a década de 70, praticamente, mas que não condiz com a realidade”, diz. Queiroz afirma que nem tudo relativo à tecnologia é codificável. “Todo processo de TT é imperfeito. São muitas variáveis em jogo. A transferência de uma matriz para uma subsidiária no mesmo país já não é perfeita: existe a cultura local, o histórico, as capacidades técnicas de quem está envolvido no processo. Imagine a transferência de um objeto complexo, entre empresas que podem até mesmo ser concorrentes, que falam outras línguas. A transferência, pura e simplesmente, talvez não dê conta disso tudo”.

Por isso, Queiroz indica que talvez a melhor maneira de pensar uma TT complexa seja através de um aprendizado tecnológico. “Considerando que a transferência completa de uma tecnologia é impossível, talvez o termo ‘aprendizado tecnológico` traga uma maior amplitude para o tema, pois aí estamos falando de algo que vai além do objeto. Não só os aspectos tecnológicos estão em jogo, mas os aspectos humanos. As empresas aprendem os métodos de produção e também podem conhecer inovações gerenciais e organizacionais”, afirma. Um bom exemplo disso foi o projeto do AMX, outro avião militar, mas com características de ataque ao solo. O projeto também previa transferência de tecnologia por parte dos sócios italianos (o projeto era bi-nacional). “O AMX é um projeto bastante interessante e que foi dividido entre dois países. A Embraer, que na época era estatal, melhorou muito seu processo industrial”, diz Felipe Salles, editor da revista eletrônica Base Militar.

Ele explica que a Embraer, antes vista como periférica e fabricante de aviões bastante simples, como o Bandeirantes, se modernizou com o projeto AMX. Os sócios italianos investiram na empresa e transferiram a tecnologia da produção das asas (que incluiu desenvolver as áreas de projetos, soldas e montagens de altíssima precisão). “O modelo que mais se beneficiou da experiência da Embraer com o AMX foi o jato regional para 50 lugares ERJ145, os atuais E-Jets e os ‘Phenom` são decorrências diretas, bem mais recentes, dessa transferência tecnológica inicial. Aliás, hoje em dia a Embraer chega a transferir esse aprendizado para outras empresas – até mesmo estrangeiras”, completa Salles.

O que se ganha transferindo o aprendizado tecnológico?

Acima de tudo, a TT é uma forma de diminuir os riscos envolvidos no desenvolvimento de um novo produto. A empresa principal atrai os chamados “parceiros de risco” que colocam seu próprio dinheiro em um novo projeto, operando como sócios e não mais como contratados. Se o parceiro não domina uma tecnologia necessária para que possa realizar sua parcela de trabalho, o parceiro principal desenvolve nele essa capacitação, com vistas a dividir o risco, explica Felipe Salles.

No caso das indústrias automobilísticas, muitas vezes, pode haver projetos de “co-design”, onde uma grande empresa se alia a uma menor para desenvolver um projeto em parceria com fornecedores, por exemplo. Isso é uma garantia da qualidade das peças e de que a terceirização de uma determinada parte da produção vai ter um nível de qualidade exigido, sem comprometer a imagem da empresa. Esse tipo de TT pode ser ainda mais ampla. O exemplo mais rotineiro ocorre entre as fabricantes de automóveis que transferem para suas subsidiárias os projetos de carros e motores, ou mesmo entre indústrias que formam parcerias em outros países com empresas locais.

Salles exemplifica com o caso da Akaer que detalhou a asa do Super Tucano, avião turbohélice de ataque projetado no Brasil e fabricado pela Embraer. “A Akaer é um agrupamento de empresas entre as quais está uma que auxiliou a Embraer na tarefa de detalhamento da estrutura do Super Tucano. A Embraer já tinha desenhado o formato externo da asa, mas coube a essa empresa projetar a forma mais eficiente e determinar qual o design detalhado das milhares de peças individuais que teriam que ser fabricadas para virarem a asa do Super Tucano”, finaliza.

Outro tipo de TT é a feita entre governos e as empresas privadas, como é o caso do FX-2. Nesse caso a exigência é de transferência completa e envolve diversas empresas. Quanto mais completo o processo de TT maiores as chances da empresa que transfere estar criando uma concorrente em potencial. O receio das consequências disso à longo prazo pode minar as negociações ou criar algum tipo de mal-estar. “Existem casos de sucesso como o da japonesa Nippon Steel e a Usiminas”, lembra Queiroz. Na época, a parceria entre as duas empresas de mineração modernizou a empresa brasileira e criou condições para um aprendizado tecnológico que resultou em diversos avanços desenvolvidos pelos brasileiros envolvidos no processo. “Um dos pontos mais importantes para o sucesso desse modelo foi o fato de que a Nippon Steel estava mudando seu foco de negócios. A empresa havia definido que era hora de deixar de ser apenas uma empresa extratora e queria se firmar como uma fornecedora de tecnologia na área de mineração. A Usiminas, em longo prazo, não representava uma concorrente”, diz Queiroz.

Graus de separação

Outro ponto importantíssimo para que a TT, ou o aprendizado tecnológico, seja um sucesso é a capacidade da empresa que absorve a nova tecnologia. A distância entre esta e a que irá transferir não pode ser muito grande, pois há o risco da transferência e da produção não se concretizarem. No caso do FX-2, onde a negociação dos governos prevê determinadas condições e as empresas envolvidas negociam posteriormente os detalhes, isso pode significar uma queda de braço indesejável. Determinado item pode não ser nacionalizado com base na impossibilidade de um parceiro de administrar sua produção. Alguns analistas militares indicam que esse seria o caso do motor do avião e dos sistemas de radares, duas áreas onde não há expoentes nacionais. “Se não há maturidade empresarial de quem recebe fica difícil transferir a industriabilidade dos produtos. Esses dois níveis têm que ser similares”, aponta Ralph Heinrich, consultor do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD). “Entretanto, no caso do Brasil, é possível a parceria com centros e institutos de ciência e tecnologia ou mesmo com o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) da Aeronáutica. E a partir da pesquisa nesses centros é possível capacitar empresas que viabilizem a produção em escala”, acredita Heinrich.

Patentes desbloqueadas

O projeto FX-2 prevê o que se chama de TT ilimitada, ou seja, todos os sistemas que compõem o avião deverão estar abertos tanto para a produção por parceiros industriais brasileiros como para eventuais mudanças, melhorias e adaptações. “A questão não é só montar o avião”, explica Sérgio Queiroz, “mas garantir que os sistemas possam ser absorvidos por inteiro e que também possam se transformar em outros produtos, ter aplicações diferentes das originais. Isso sim é o ponto interessante da TT.” Para o pesquisador a empresa vencedora não pode usar as patentes que detêm para bloquear essas melhorias e adaptações. A tecnologia proprietária será licenciada sem limitações.

Na reta final do processo decisório muito se falou da proposta americana (relativa ao F-18 Super Hornet, fabricado pela Boeing) que se dispunha a fazer a “transferência necessária” de tecnologia, ao contrário dos outros dois concorrentes, onde a palavra ilimitada deixa claro essa abertura na questão das patentes. Agora o projeto FX-2 entra no estado crítico de decisão. Analistas militares lembram que o projeto não é em curto prazo e mesmo após a escolha do finalista seria necessário no mínimo um ano para detalhar corretamente os itens iniciais do pacote de documentação de tecnologia de produto. Após esse primeiro passo ainda há um longo e complexo trabalho até que finalmente os primeiros aviões sejam montados em solo brasileiro. Somente por volta de 2016, é que a indústria nacional terá a real noção do quanto a transferência de tecnologia proporcionada pelo FX-2 foi vantajosa ou se, no final das contas, a ideia era comprar apenas uma máquina de guerra eficiente.

A polêmica

No início de janeiro deste ano, a colunista Eliana Cantanhêde, do jornal Folha de S. Paulo comunicou o vazamento de um suposto relatório da FAB, encarregada de fazer uma análise técnica para nortear as escolhas do processo de compra do processo FX-2. O relatório, uma versão anterior do que será apresentado ao ministro Nelson Jobin e ao presidente Luiz Inácio “Lula” da Silva, indicaria a preferência da FAB pela plataforma da empresa sueca SAAB, que, na concorrência pelo negócio bilionário, ofereceu o avião Gripen, versão NG (New Generation).

A preferência da FAB se daria por dois motivos: primeiro o financeiro, pois o Gripen NG seria mais barato em termos unitários e com um preço de manutenção muito menor que os outros dois concorrentes (o americano Boeing F-18 e o francês Dassault Rafale, que teria ficado em terceiro lugar). Em segundo lugar a questão relativa ao fato de que o Gripen NG seria uma “versão em desenvolvimento” do atual Gripen, o que possibilitaria que o Brasil participasse de perto do processo de desenvolvimento de tecnologias em conjunto com a empresa sueca.

Para os críticos, o fato do Gripen NG estar em desenvolvimento é justamente seu ponto negativo. Chamado de “caça de papel” em alguns fóruns militares brasileiros, o Gripen seria o pior das três propostas apresentadas no processo do FX-2. Outros problemas citados pela escolha do Gripen seriam o risco que se corre quando se opta por um projeto, que pode sair mais caro do que o esperado ou mesmo não se concretizar. No final da década de 80, por exemplo, a Força Aérea israelense desistiu de desenvolver uma plataforma própria para o caça “Lavi”, afirmando ser mais barato comprar e manter aviões fabricados nos EUA. O projeto, entretanto, foi vendido à China e é base do Jian (J-10), que integra atualmente a Força Aérea chinesa. O Gripen também é criticado por utilizar inúmeras peças americanas, entre elas o motor, o que poderia gerar diversos empecilhos por parte do governo dos EUA, como embargos.

Os sinais do governo brasileiro parecem indicar que o preferido do processo é mesmo o francês Rafale. A sustentação da escolha política pela plataforma francesa seria a inserção do FX-2 em um projeto maior de defesa nacional, que incluiria outras parcerias como, por exemplo, a frota de submarinos e helicópteros. Além disso, o Brasil está negociando tecnologias para o projeto “Soldado do Futuro” com o governo da França, inserção no projeto Galileo (padrão europeu de localização via satélite que faria frente ao padrão GPS, americano) e, em termos geopolíticos, o apoio dos franceses a um lugar definitivo do Brasil no Conselho de Segurança da ONU.


 

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Revista Conhecimento & Inovação
ISSN 1984-4395

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