Abril / maio / junho de 2010
  • NOVAS TECNOLOGIAS
  • Brasil e Japão promovem padrão ISDBT de TV digital
  • Uniformidade tecnológica entre países da América do Sul estimula novos negócios e serviços
  • Bruno Buys
Mapa mundial dos padrões de TV digital
Foto: Wikimedia/Domínio público


A TV digital brasileira começou a ganhar espaço em 1999, quando setores da academia, indústria e governo passaram a discutir quais seriam as características desejáveis para o padrão de transmissão. Na mesa existiam basicamente três opções: o ATSC americano, o DVB europeu e o ISDB japonês. O Brasil optou pelo padrão japonês, adicionando a ele algumas características que haviam sido apontadas pelo Comitê de Desenvolvimento do Sistema como importantes, como a interatividade. O resultado ficou conhecido como o padrão nipo-brasileiro ISDB-T.

Desde cedo, na curta história da TV digital, o governo se preocupou com a abrangência desse padrão dentro de nosso contexto regional, da América do Sul. Como os demais países se encontravam em uma posição mais indefinida, em relação à adoção da TV digital, o Brasil tinha um papel de liderança natural. Uma possível definição desses países em prol de sistemas como o DVB ou o ATSC poderia tornar a região dividida por sistemas incompatíveis, dificultando o fluxo tanto de conteúdos quanto de equipamentos, o que seria, evidentemente, indesejável.

O Ministério das Relações Exteriores encarregou então o Itamaraty, em seu Departamento de Ciência e Tecnologia, de promover o entendimento sobre o padrão ISDBT na América do Sul, para que sua eventual adoção pudesse viabilizar a uniformidade tecnológica necessária para facilitar o trânsito de conteúdos e estimular novos negócios baseados em fornecimento de serviços ao redor da TV digital.

O embaixador Hadil da Rocha Vianna, diretor do Departamento de C&T do Itamaraty, coordenou essa atividade, que, a partir de novembro de 2006, compreendeu viagens aos países do bloco, com palestras, demonstrações e articulações políticas. “Nós as chamávamos de roadshows. Eu chefiava a delegação, que era composta ainda por representantes da Casa Civil, e das pastas interessadas: Ministérios da Ciência e Tecnologia, das Comunicações, e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Fizemos apresentações no Chile, Argentina, Colômbia, Venezuela, Equador e Peru. E, no fim, tivemos a manifestação de alguns países, que são representantes de economias importantes da região, adotando o padrão ISDBT. Temos cinco países: Brasil, Chile, Argentina, Venezuela e Peru. O Equador, há pouco tempo, embora ainda não oficialmente, acenou com a possibilidade de optar pelo ISDBT, então seríamos seis ao todo”. Rocha Vianna completa dizendo que outros países do bloco acabaram escolhendo outro sistema: “De forma mais apressada, Uruguai e Colômbia resolveram adotar o DVB, cedendo possivelmente ao lobby de empresas de telecomunicações europeias”.

TV digital aberta, livre e gratuita

A adoção do sistema nipo-brasileiro fomenta a inovação e a convergência digital em torno dos serviços de TV. Importante destacar que se trata de TV aberta, e não de TV a cabo, ou por assinatura. O Japão, em um movimento para estimular a adoção do padrão pelos países da América do Sul, liberou mais de 165 patentes relativas ao ISDB. Da parte do Brasil, que desenvolveu o software Ginga, para interatividade, não foi necessário liberar patentes, pois ele foi, desde o começo de seu desenvolvimento, licenciado como software livre.

A coordenadora do Módulo Técnico do Fórum Brasileiro de TV Digital, Ana Eliza Faria e Silva, conta que o fórum teve participação conjunta, apoiando as atividades coordenadas pelo Itamaraty. O fórum, entidade civil criada pelo Decreto 5.820, de 29 de junho de 2006, tem a função de auxiliar o Comitê de Desenvolvimento da TV Digital e congrega representantes dos setores da indústria de fabricantes de equipamentos, radiodifusão, entidades de pesquisa, e indústria de software.

“O apoio do fórum serviu para criar normas técnicas que estão publicadas no nosso site em inglês, português e espanhol, para que possamos de fato compartilhar a base técnica, para que seja comum nesses países”, disse Ana Eliza.

A convergência fica por conta da recepção do sinal de TV digital em aparelhos celulares. Essa possibilidade, ainda incipiente, mas de grande alcance em um futuro próximo, anima os interessados na área. Aparelhos capazes de captar o sinal de TV digital já existem e, embora tenham ainda custos altos, como o Nokia N85 (que aceita o receptor de TV digital SU-33Wb, e orçado na faixa de R$ 1.600,00), devem ter seus preços reduzidos, com a ampliação do mercado possibilitada pela adesão ao padrão ISDBT, e também pela crescente implementação de mais transmissões e emissoras com sinal digital Brasil afora.

Dados da Agência Nacional de Telecomunicações para novembro de 2009 indicavam uma penetração de quase 90% da telefonia móvel junto à população. Com essa base instalada de usuários de celular, haverá um grande mercado para aparelhos capazes de sintonizar a TV digital. E com o padrão ISDBT aberto, qualquer fabricante de aparelhos poderá implementar essa funcionalidade em seus modelos.

O trabalho coordenado pelo Itamaraty busca facilitar e viabilizar o fluxo de conteúdos entre os países da América do Sul, bem como potencializar negócios em telecomunicações e novas mídias. E de forma inovadora e construtiva, uma vez que a existência de uma plataforma, ou seja, uma linguagem comum e aberta, é o primeiro passo necessário para a colaboração entre os participantes.

Alguns fatos sobre a TV digital brasileira

Inaugurada por uma transmissão piloto na cidade de São Paulo, em 2 de dezembro de 2007. Ausente nos estados do Acre, Roraima, Amapá, Rondônia, Maranhão, Tocantins, Rio Grande do Norte e Alagoas. Nos demais estados, presente principalmente nas capitais, com exceção de São Paulo, onde tem forte presença também no interior. Ao todo são 26 cidades cobertas, englobando uma população de cerca de 60 milhões de pessoas.Dados do Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD) indicam que nestes dois anos de atividades, já foram vendidos mais de 2 milhões de receptores, incluindo equipamentos de variados tipos, como televisores, celulares e set-top-boxes (conversores).


 

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Revista Conhecimento & Inovação
ISSN 1984-4395

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