Abril / maio / junho de 2010
  • OPINIÃO
  • Pensamento, ação e inovação
  • Paulo Renato Cabral
Foto: Arquivo pessoal


Como seria a competiti­vidade de uma organização com as seguintes caracte­rísticas: a incerteza faz par­te do seu cotidiano, o risco está presente ao ponto da organização comprometer suas receitas, mercado e até sua imagem, e as pessoas têm parte do tempo livre para se dedicar a atividades que es­tão absolutamente fora do atual mercado e/ou modelo de negócios da organização. Esta pergunta foi direcionada a uma sala de aula com sessenta executivos de primeiro escalão de empresas em um MBA (Master of Business Administration, na sigla em inglês) de uma universidade. A resposta foi objetiva. Essa organização não está alinhada às modernas diretrizes empresariais e, com certeza, sua vida empresarial será breve. Na semana seguinte uma nova per­gunta foi feita aos sessenta executivos do curso – Qual a competi­tividade de uma organização que não inova? – E a resposta, muito objetiva também. Essa organização não está alinhada às moder­nas diretrizes empresariais e, com certeza, sua vida empresarial será breve.

Para esses sessenta alunos do MBA, curiosamente, a incerte­za, o risco e a liberdade criativa estão dissociados da inovação, afinal esses atributos são conceitos bastante antagônicos à cer­teza, segurança e direcionamento que as organizações necessi­tam para conduzirem uma estratégia de sucesso. A inovação virou tema e pauta nas principais reuniões, tendências e prática das empresas, governos, universidades e organizações do terceiro se­tor. Nunca se propagou tanto a importância de se inovar e, nessa propagação, muitas vezes o encantamento e o modismo ofuscam importantes pressupostos contidos nesse tema. Acredita-se que com mais leis, incentivos, fomentos, estu­dos ou novos métodos de gestão, que a inovação se materializará produzindo benefícios a todos. Atributos tangíveis como esses são importantes, mas não são suficientes para gerar a inovação. Uma lei não pode mudar uma mente, mas uma mente com novas ideias pode mudar muitas coisas.

Inovar, em suas diversas concepções, mais do que gerar e produzir o novo com sucesso, significa também correr riscos, conviver com a incerteza, gerar ideias e conviver com os erros e fracassos. Isso são atributos ligados ao comportamento humano, não dependem de leis ou incentivos, mas são favorecidos por estes. Como em um paradoxo de nosso tempo, as organizações ago­ra propagam a importância da inovação, algumas até se sentem acuadas, tamanha a importância que se dá ao tema, mas na aplica­ção real do dia a dia, ainda utilizam um sistema anti-inovação que não estimula a criatividade, que não cria um ambiente propício às novas ideias e até mesmo ao erro, onde os incentivos são de curto prazo ou alinhados dentro de um orçamento rígido, a hierarquia é que determina o que é certo ou errado, e onde o tempo das pessoas está 110% comprometido com as operações e metas dos proces­sos organizacionais.

A inovação realmente só floresce quando se muda um mo­delo de pensamento, as leis e incentivos ajudam, mas não são suficientes. Nesse novo modelo mental, a competição dá lugar à colaboração, a hierarquia dá lugar ao trabalho em rede, a rigidez se transforma em liberdade, o risco significa oportunidade e o medo de errar representa aprendizagem.

Nesta era da inovação o mundo está aberto ao novo, e agora é possível fazer diferente, cabe agora a cada indivíduo, empresa ou organização definir o seu papel, zelando para que este tema, a inovação, seja a oportunidade de melhoria tão almejada pelos sistemas sociais e econômicos de nosso tempo.

Paulo Renato Cabral é presidente do Instituto Inovação, onde trabalha com governo, centros de pesquisa e empresas para apoiar a geração da inovação. Formado em Engenharia Metalúrgica e de Materiais pela UFMG.

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Revista Conhecimento & Inovação
ISSN 1984-4395

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