Abril / maio / junho de 2010
  • INPI
  • Pré-sal: desafios tecnológicos
  • Ricardo Carvalho Rodrigues


A alta concentração tecnológica, a dificuldade de transferência de tecnologia e a escassez de soluções economicamente viáveis para transporte de gás natural de fontes remotas tornam a exploração do petróleo da região do pré-sal um desafio tecnológico ainda maior

Um dos desafios encontrados pela Petrobras na exploração do petróleo da área do pré-sal reside na grande quantidade de gás natural associado. A enorme distância (+/- 300km) do continente torna inviável o escoamento desse gás através de dutos pelo oceano, sendo necessário queimá-lo na própria base de produção – off-shore. Essa alternativa encontra barreiras ambientais, uma vez que a queima gera grande quantidade de gases poluentes, incluindo o gás carbônico. A viabilização da exploração e produção desses poços passa pela destinação dessa enorme quantidade de gás gerada.

A eliminação da restrição à produção de óleo da área do pré-sal pode ser alcançada através da aplicação de tecnologias de transformação do gás natural para transporte em substituição à utilização de gasodutos. Dentre as tecnologias disponíveis estão: GNC (gás natural comprimido), GTS (gás para sólido; hidratos), GNA (gás natural adsorvido), GTW (gás-to-wire, geração de eletricidade), GNL (gás natural liquefeito – transformação física do gás natural, passando do estado gasoso para o estado líquido) e GTL (gás para líquido — transformação química do gás natural em combustíveis líquidos como diesel, gasolina, lubrificantes etc).

Dentre as tecnologias apontadas anteriormente, as que aparecem como promissoras opções de logística para o transporte do enorme volume de gás natural associado ao pré-sal são o GNL e GTL. (gráfico)

Com objetivo de evidenciar o cenário mundial dos depósitos de patentes referentes às tecnologias GTL e GNL, foi realizada uma busca na base de dados do escritório europeu de patentes - Epodoc, utilizando classificações internacionais (CIP) referentes às tecnologias em questão como indexadores.

Uma análise dos documentos de patentes depositados no mundo, referentes às tecnologias GTL e GNL, mostra que ambas as tecnologias possuem um número expressivo de depósitos. Entretanto, a tecnologia GNL aparece mais avançada em relação à adaptação da produção off-shore, sendo o primeiro depósito de 1972. Dentre os 79 pedidos envolvendo GNL off-shore, apenas três foram depositados no Brasil: PI0214799 – Instalação flutuante para tratamento de hidrocarbonetos, PI0212514 – Sistema flutuante para liquefação de gás natural e PI9909690 – Estrutura marítima flutuante aperfeiçoada. Nesse segmento, a empresa anglo-holandesa Shell aparece como maior depositante de patentes.

Atualmente a tecnologia que tem despertado interesse de diversas empresas é a que torna viável a aplicação de processos GTL off-shore, pois, além de atender às exigências ambientais, as plantas GTL em plataformas móveis viabilizam a monetização de reservas de gás natural através de sua conversão em combustíveis líquidos de maior valor agregado, sendo facilmente transportados por longas distâncias.

O primeiro depósito relacionado a essa tecnologia foi realizado em 1995, e hoje são 29 pedidos de patentes, sendo dois deles depositados no Brasil: PI9610694 – Processos e plantas para tratamento de fluxo de poço produzido a partir de um campo de petróleo no mar e para conversão de gás natural, especificamente um gás natural associado, em um petróleo cru sintético e/ou cera e PI0209375 – Processo de Fischer Tropsch utilizando uma estrutura flutuante. Dentre os pedidos analisados, somente quatro empresas aparecem como depositantes: Syntroleum, Gueh How Kiap, Britsh Petroleum e Norske Stats Oljeselskap.

A alta concentração tecnológica, a dificuldade de transferência de tecnologia e a escassez de soluções economicamente viáveis para transporte de gás natural de fontes remotas tornam a exploração do petróleo da região do pré-sal um desafio tecnológico ainda maior.

Ricardo Carvalho Rodrigues é engenheiro químico, doutorando em engenharia química, na Coppe/UFRJ e pesquisador do Centro de Divulgação, Documentação e Informação Tecnológica (Cedin) do Instituto Nacional da Propriedade Industrial.

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Revista Conhecimento & Inovação
ISSN 1984-4395

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