Abril / maio / junho de 2010
  • SPIN-OFF
  • Peculiaridades do ecossistema empreendedor do MIT
  • Unir teoria e prática é chave do sucesso do instituto
  • Cristina Caldas
Biotecnologia é um dos focos do MIT
Foto: Divulgação


Caminhar pelos 251 metros do “corredor infinito” que corta o prédio símbolo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) é uma das maneiras de sentir a vivacidade e uma certa liberdade criativa no ar da instituição cujos números do empreendedorismo impressionam. Segundo o estudo “Entrepreneurial impact: the role of MIT”, publicado em 2009 pelos professores Edward Roberts e Charles Eesley, as 25.800 empresas atualmente ativas, fundadas por alunos do MIT, empregam mais de três milhões de pessoas e geram uma receita anual de dois trilhões de dólares, rendimento equivalente a 11ª maior economia do mundo.

“O ambiente aqui é muito flexível”, diz o brasileiro Gabriel Bitran, professor da Escola de Negócios Sloan (MIT Sloan School of Management). Bitran conta que seus alunos desenvolveram projetos revolucionários em seus cursos, tais como instrumentos de medicina para troca da cabeça do fêmur e cirurgia cardíaca, com robôs. Segundo ele, um dos motivos do sucesso é a mescla de engenheiros trabalhando com administradores e empreendedores. “Não há compartimentalização, não há empecilhos, a criatividade corre solta”, diz.

Ecossistema empreendedor

Esse é o termo usado por Roberts e Eesley para representar as múltiplas facetas do estímulo ao empreendedorismo encontrado no MIT (veja box para saber mais sobre a instituição). Além da histórica cultura de mens at manus (mentes e mãos), presente desde a fundação do instituto em 1861, os alunos inclinados para uma carreira de negócios têm a oportunidade de realizar cursos de graduação e pós-graduação na área, independentemente da sua formação básica. Tais cursos, que misturam a teoria com a prática, são ministrados tanto por acadêmicos quanto por empreendedores de sucesso. Além disso, clubes, prêmios e departamentos foram sendo criados ao longo do tempo com o objetivo de construir e sustentar o aspecto empreendedor da universidade.

Segundo Susan Silbey, professora de sociologia e antropologia da instituição, várias forças se reúnem para construir a cultura do MIT. A primeira é o elitismo, com o mesmo espírito “vou mudar o mundo” presente em outras universidades de elite. A segunda é o domínio de engenheiros, 60% hoje, mas no começo beirava os 95%. “Os engenheiros têm sido substituídos por cientistas, uns poucos arquitetos e cientistas sociais, mas a cultura foi formada quando a exclusividade era quase de engenheiros”, diz Silbey. A professora explica que os engenheiros criaram tal espírito empreendedor, pois são envolvidos com hands-on, mão na massa, não tanto com entender como as coisas funcionam. A terceira força defendida por ela é o tamanho reduzido da instituição e o fato de não haver no MIT faculdade de direito e de medicina. Com isso, a escola de negócios tem um domínio maior do que em outras instituições. Para Silbey, os cientistas passaram ativamente a se envolver com negócios depois da explosão biológica – com o desenvolvimento da tecnologia do DNA recombinante – e após mudança nas leis federais de propriedade intelectual de pesquisas financiadas com dinheiro público, na década de 1980.

O primeiro movimento institucional direto de estímulo ao empreendedorismo foi o MIT Entrerprise Forum, criado por alunos há 40 anos. Por meio de eventos educacionais e encontros, o fórum tem possibilitado a criação de uma rede de contatos entre alunos, empreendedores, executivos e venture capitalists da região. Outra iniciativa posta em prática por alunos foi a competição de planos de negócios $100K (MIT $100K Business Plan Competition). Alunos e professores inscrevem planos de negócios de empresas para colocar suas ideias em prática, e uma equipe de especialistas avalia o plano. A rede de contatos entre mentores, investidores, parceiros potenciais e o prêmio em dinheiro fez nascer, até o momento, 120 empresas que geraram 2.500 empregos e receberam 700 milhões de dólares de financiamento por capital de risco.

Foi o caso da Akamai, fundada em 1999, após um desafio lançado pelo inventor da www (World Wide Web), Tim Berners-Lee, professor do MIT. Segundo dados do site da empresa, Berners-Lee previu os problemas de tráfego agora familiares aos usuários da internet, e desafiou seus colegas a inventar uma maneira nova e eficiente de transmitir conteúdos pela internet. Tom Leighton, professor de matemática aplicada, ficou intrigado e pediu ajuda ao aluno de pós-graduação Danny Lewin – que acabou falecendo alguns anos mais tarde a bordo de um dos aviões que atingiu as torres gêmeas. Leighton, Lewin e outros pesquisadores desenvolveram uma estratégia inovadora, usando uma série de algoritmos, para roteamento e replicação de conteúdo, em uma grande rede de servidores distribuídos. Foi quando Jonathan Seelig, então MBA na Escola de Negócios Sloan, se juntou ao time. Um plano de negócios foi desenvolvido e, em 1998, o grupo foi um dos finalistas da competição. Executivos se agregaram ao grupo e fundaram a empresa que hoje fornece uma série de serviços que deixam a internet mais rápida, confiável e segura, basicamente mantendo servidores espalhados ao redor do mundo, que mantêm cópia de páginas e aplicações para seus consumidores, de acordo com Carlos Eduardo Selonke de Souza, gerente de arquitetura de aplicativos do Banco Itaú BBA e aluno do MBA da Sloan. Souza explica que quando um usuário acessa uma página nos Estados Unidos a partir de um website no Brasil de um cliente da Akamai, o servidor da empresa nos Estados Unidos provê a página da web para o usuário, evitando viagem de ida e volta para o Brasil. “Caso o website no Brasil pare de funcionar, a cópia norte-americana fornece a página para os usuários brasileiros”, diz.

Mas não param por aí os estímulos para negócios. Em 1990 foi inaugurado o Centro de Empreendedorismo do MIT (MIT Entrepreneurship Center), que cristalizou os esforços, lançando cursos de liderança, empreendedorismo e inovação, e colaborando com a criação de clubes de estudantes, segundo Roberts e Eesley.

Outras iniciativas incluem o Venture Mentoring Service, fundado em 2000 para ajudar pessoas ligadas ao MIT a montar empresas, e o Deshpande Center for Technological Innovation, lançado em 2002 com o objetivo de financiar pesquisas com potencial alvo de comercialização. O Legatum Center for Development and Entrepreneurship é um novo programa de bolsas e o Industrial Liaison Program estabelece relacionamento com corporações que pagam certa quantia por ano para terem acesso a pesquisas e tecnologias desenvolvidas no MIT. Um departamento estruturado de patentes (Technology Licensing Office) também faz parte do ecossistema de negócios. “Uma verdadeira mina de ouro”, diz Bitran.

Empresas filhas do MIT

O estudo conduzido por Roberts e Eesley mostrou que as empresas fundadas por alunos do MIT são principalmente baseadas em conhecimento, e voltadas para as áreas de softwares, biotecnologia, produção (eletrônicos, computadores, semicondutores, instrumentos, maquinário), ou consultoria (arquitetos, consultores de negócios, engenheiros). A lista de empresas relacionadas à instituição é enorme, uma mescla entre as que estão no mercado há bastante tempo e de novas que crescem rapidamente. Gillette, Texas Instruments, Hewlett-Packard, Harmonix (criadores dos jogos Guitar Hero e Rock Band), IRobot Boston Dynamics (robôs), Evergreen Solar (painéis para captação de energia solar), A123 Systems (nova tecnologia de baterias), Genzyme (biotecnologia), além de um grande número de spin-offs de defesa aérea. A MicroCHIPS Inc, nomeada como tecnologia pioneira de 2010 pelo Fórum Econômico Mundial, desenvolve chips que são implantados em pacientes para monitorar mudanças bioquímicas vitais, liberação de drogas potentes e comunicação com tecnologias sem fio. Outros exemplos são a Atlantis Components (equipamentos médicos) e a Alnylam, que vem desenvolvendo terapias inovadoras baseadas na tecnologia de RNA de interferência (RNAi) para silenciar genes. “Compartilhamos uma rica e produtiva história com o MIT”, diz representante da empresa.

Em 2003, a Alnylam licenciou patentes do MIT relacionadas à descoberta do RNAi. Em maio de 2007, foi oficializado um acordo com a instituição para financiar um programa de pesquisa de cinco anos voltado ao desenvolvimento de terapias baseadas no RNAi. Robert Langer e Daniel Anderson, do MIT, conhecidos pelo domínio da área de drug delivery e bioengenharia de materiais, são co-pesquisadores desse programa. “Acreditamos que os resultados desse acordo trarão amplas aplicações em muitos dos nossos novos projetos, uma vez que investigamos e avaliamos delivery tanto sistêmico quanto direto da terapia com RNAi”. Além disso, merece destaque o fato de que alguns professores do MIT são fundadores e membros do conselho científico da empresa, como o próprio Langer e Philip Sharp.

A empresa E-ink, que produz a tela do Kindle, livro eletrônico comercializado pela Amazon, também é uma spin-off do MIT. Sriram Peruvemba, vice-presidente de Marketing, conta que a tecnologia foi inventada por Joseph M. Jacobson, atualmente professor do Laboratório de Mídia (Media Lab) do MIT. “Muitos dos nossos primeiros funcionários vieram do MIT e trouxeram com eles a cultura empreendedora”, diz.

Uma caminhada rumo ao empreendedorismo deve ser tratada sob suas diferentes facetas e impactos. Se a decisão da universidade for apoiar o crescimento econômico por meio dos negócios, os programas e práticas do MIT podem ser adotados, intactos ou modificados, segundo Roberts e Eesley.

A instituição

Fundado em 1861, o MIT (The Massachusetts Institute of Technology) é uma universidade privada voltada ao avanço do conhecimento e educação em ciência, tecnologia, e outras áreas do conhecimento a serviço dos EUA e do mundo no século 21. O instituto tem mais de 900 professores e dez mil alunos de graduação e pós-graduação. Localizado em Cambridge, nos Estados Unidos, o MIT é composto por cinco escolas: Arquitetura e Planejamento Urbano; Engenharia; Humanidades, Artes e Ciências Sociais; Escola de Negócios Sloan; e Ciência. (Fonte: MIT)

 

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Revista Conhecimento & Inovação
ISSN 1984-4395

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