Abril / maio / junho de 2009
  • ARTIGO
  • Inovando através da criação de uma cadeia de transformação sustentável de lixo eletrônico
  • Tereza Cristina M. B. Carvalho
Foto: Arquivo pessoal


Atualmente, as organizações privadas e públicas, bem como os indivíduos, têm adquirido um número crescente de bens de informática e telecomunicações, que são, normalmente, substituídos por obsolescência, por mau funcionamento ou mesmo pelo impulso do consumidor de possuir algo mais moderno e mais atual.

No Brasil ocorre, também, um consumo crescente de microcomputadores e celulares. Em 2007 foram vendidos 10,5 milhões de computadores, com um crescimento de venda de 42% em relação a 2006, segundo pesquisa da FGV (1). Em 2008, foi ultrapassado o total de 50 milhões de unidades, cujo tempo de vida médio varia de 3 a 4 anos. No caso de celulares, em 2007, o Brasil atingiu a marca de 120,98 milhões de assinantes (2), com um crescimento de 21,08% em relação a 2006, de acordo com a Anatel (3). Foram vendidos mais de 21 milhões de aparelhos em 2007, número recorde para o setor, com o tempo de vida médio estimado de 1 a 1,5 anos. No fim de 2009, deve-se atingir a marca de 170 milhões de celulares habilitados.

A Universidade de São Paulo (USP), em 2006, possuía 37.420 microcomputadores, 15.593 impressoras e 3.998 equipamentos de rede patrimoniados. Em 2007 passou a ter 37.923 microcomputadores, 15.702 impressoras e 4.569 equipamentos de rede. Estima-se que 15 a 20% desse parque computacional tornam-se obsoletos a cada ano. Diante dessa realidade, algumas questões se colocam:

> O que fazer com o volume crescente de lixo eletrônico? Como diminuir ou eliminar os danos criados por esse lixo?

> Como se garante o seu fim sustentável, pelo reuso, descarte ou reciclagem?

> No caso de doações de equipamentos usados, como garantir o fim sustentável desses equipamentos ao final do seu ciclo de vida?

> Quais tipos de parcerias devem ser estabelecidos com fornecedores de equipamentos eletroeletrônicos e empresas de reciclagem para resolver a problemática do lixo eletrônico?

A existência de um volume crescente de lixo eletrônico na USP e a inexistência de políticas internas à universidade e tampouco em nível de governos estadual e federal visando garantir o seu fim sustentável, motivou-nos a elaborar o projeto da Cadeia de Transformação de Lixo Eletrônico para viabilizar o seu destino sustentável por meio de sua reutilização ou reciclagem. Em consonância com esse projeto, criou-se o “selo verde”, cujo objetivo é incentivar o consumo de equipamentos de informática e telecomunicações verdes reduzindo a geração de lixo eletrônico prejudicial para a natureza e para o ser humano.

Os objetivos principais desse projeto são:

> Definição do conceito de “verde”, aplicável a bens de informática e telecomunicação.

> Criação de uma cadeia para transformação de lixo eletrônico, que viabilize o equilíbrio entre a geração e o processamento sustentável de lixo eletrônico.

> Redução da geração de lixo eletrônico com componentes tóxicos e não recicláveis, por meio da aplicação de políticas diferenciadas para aquisição, descarte e reciclagem sustentável de bens de informática e telecomunicação.

Está organizado em três fases:

1ª fase - Coleta e classificação de resíduos eletroeletrônicos. Dentro desse escopo, foi criado o Dia do Descarte Legal, integrando a comemoração internacional do Dia do Meio Ambiente.

2ª fase – Identificação de empresas parceiras de reciclagem e fornecedoras de equipamentos eletroeletrônicos verdes. Foram visitadas várias empresas de reciclagem e instituições/órgãos envolvidos com a temática de sustentabilidade e lixo eletrônico. Essa pesquisa permitiu constatar que existem três tipos de empresas:

a. Empresas transformadoras de resíduos. Fazem a reciclagem do material recebido, gerando matéria-prima para outras indústrias.

b. Empresas que descaracterizam os resíduos, classificam e separam materiais e encaminham esses materiais separadamente. Incluem empresas que, por exemplo, no caso de um microcomputador, desmontam e separam as suas diferentes partes (por ex.: placas de circuito impresso, encaixes metálicos, caixa de plástico), descaracterizam componentes chaves como placas de circuitos impressos e encaminham esses materiais para diferentes empresas de reciclagem.

c. Empresas que apenas separam, processam e revendem o material: esta categoria inclui a maioria dos sucateiros do mercado, que em geral, não tem muita preocupação ambiental, e nem programa de descarte adequado. Parte do material separado é vendido e enviado para empresas dos tipos a e b.

3ª fase - Criação do Centro de Descarte e Reciclagem de Lixo Eletrônico.

Essa fase do projeto teve início em setembro de 2008 e deve ser finalizada em meados de 2009. O Centro de Descarte e Reciclagem de Lixo Eletrônico (CEDR) deve operar considerando os seguintes ciclos:

> Coleta e Triagem: Responsável pela coleta dos componentes e equipamentos eletroeletrônicos da comunidade USP e, posteriormente, do público em geral. Esses componentes e equipamentos serão testados para verificar sua operacionalidade. Caso ainda estejam funcionando, serão encaminhados para projetos sociais e ONGs credenciadas junto à USP. Caso não haja possibilidade de seu reaproveitamento, serão encaminhados para o ciclo de categorização.

> Categorização: Realiza o pré-processamento do lixo eletrônico coletado, que inclui as atividades de: pesagem, desmontagem (por exemplo, de um microcomputador), separação de seus componentes (placas mãe, placas de fonte de alimentação, peças metálicas, peças plásticas), descaracterização desses componentes (discos descartados para evitar a recuperação indevida de suas informações), compactação e acondicionamento desses componentes para facilitar seu transporte, e, por último, pesagem por tipo de material.

> Reciclagem: Os componentes separados e descaracterizados no ciclo anterior são encaminhados para indústrias de reciclagem adequadas para seu tratamento. Assim, peças metálicas e plásticas serão enviadas para diferentes indústrias de reciclagem, a serem credenciadas pela USP.

Considerações finais

Dada a inexistência de legislação no Brasil, que responsabilize os produtores pela reciclagem ou destino sustentável dos bens por ele produzidos, é de extrema importância que o usuário de tecnologia se conscientize sobre a relevância de exigir equipamentos verdes na fase de aquisição e de garantir o seu descarte sustentável ao final de seu tempo de vida.

O projeto descrito é uma iniciativa pioneira em termos de órgão público e de instituição de ensino superior, tendo recebido Menção Honrosa do Prêmio Mário Covas, na categoria Inovação, em 2009. No Brasil, a Cetesb está iniciando projeto similar para coleta de lixo eletrônico de órgãos públicos. Existem algumas iniciativas de empresas privadas, como é o caso do Banco Real e da Itautec, que têm investido em projetos de tratamento de lixo eletrônico, mas pouco se ouve falar de instituições usuárias que atuem nessa área (4).

Foram efetivadas duas ações consideradas pioneiras na área. Uma delas foi a criação do “selo verde” pela USP, atribuído a todo equipamento verde que for adquirido pela instituição. O conceito “verde” considera características presentes no produto comercializado ou na empresa fornecedora. A fabricação desses equipamentos deve seguir padrões de gestão ambiental como ROHS e ISO 14.001, não empregando substâncias tóxicas, como o chumbo e cádmio. Tais equipamentos devem apresentar menor consumo de energia, quando comparado com produtos similares. Além disso, a empresa fornecedora deve se responsabilizar pelo descarte ao final de seu tempo de vida. A outra ação foi, a partir da constatação do volume crescente de lixo eletrônico na USP, a criação, em janeiro de 2008, do projeto da Cadeia de Transformação de Lixo Eletrônico. O projeto foi desenvolvido em diversas etapas, visando implantar processos que permitam o reuso e o descarte sustentável de bens eletroeletrônicos obsoletos da própria USP. O mesmo projeto deve ser implantado nos demais campi do interior, onde funcionarão Centros de Coleta e Triagem de Lixo Eletrônico.

Tereza Cristina M. B. Carvalho é diretora do Centro de Computação Eletrônica e professora doutora da Escola Politécnica, da USP. E-mail: carvalho@larc.usp.br.

Referências bibliográficas

1. Meirelles, F. S. Pesquisa Anual CIA, FGV-EAESP, 19ª edição, 2008. Resumo disponível em: www.fgvsp.br/cia/pesquisa

2. Rodrigues, Lorena. “Número de celulares cresce 21% e ultrapassa 120 milhões” - Folha on line - 16/01/2008.

3. Antunes, Fernando. “Brasil atingirá 170 milhões de celulares em 2009, aponta estudo”- Folha Online 14/08/2008, disponível em: www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u433522.shtml.

4. Greenpeace: www.greenpeace.org/international/campaigns/toxics/electronics/where-does-e-waste-end-up

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Revista Conhecimento & Inovação
ISSN 1984-4395

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