Janeiro / fevereiro / maro de 2009
  • ARTIGO
  • A construção de ambientes de inovação para pesquisa científica e tecnologias sociais
  • Ricardo T. Neder
Foto: Arquivo pessoal


Tem havido nos últimos anos ampla mobilização da opinião pública pela divulgação sistemática de ações, experiências, políticas e conceitos em torno da tecnologia social. Integram essas ações uma Rede Brasileira de Tecnologia Social (RTS), os prêmios anuais de tecnologia social da Fundação Banco do Brasil e, sobretudo, as ações de fomento da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) aos ambientes de inovação de 88 incubadoras de cooperativas populares nas universidades públicas no país.

Complementar a esse quadro, pela primeira vez no país criou-se uma Secretaria de Ciência e Tecnologia para Desenvolvimento e Inclusão social (SECIS/MCT). O Ministério do Desenvolvimento Agrário, MDA, o Ministério do Desenvolvimento Social, MDS, o Sebrae nacional, todos são agentes de fomento que têm promovido editais para financiamento de projetos de tecnologias sociais da comunidade de pesquisa no país. Dessa forma, não se pode argumentar desconhecimento do que é tecnologia social. Ainda é pouco, mas o início está construído.

Em torno do movimento pela tecnologia social foram investidos cerca de R$ 500 milhões nos últimos cinco anos, segundo dados da RTS. O acervo de experiências e conhecimentos é significativo em matéria de projetos demonstrativos e em escala real. Dentre eles, os da Economia Solidária e formas de encadeamento da produção e ação social, o modelo PAIS de horticultura familiar para segurança alimentar e nutricional, a Articulação do Semi-Árido (ASA). Esses casos são apenas uma pequena ponta desse iceberg.

A seu modo e estilo cultural, homens e mulheres em tais ambientes apresentam inovações com o trabalho aplicado ao processamento dos produtos extrativistas, às práticas agropecuárias com rebanhos e sementes, alimentação humana e animal.

Diante desses ambientes, que políticas de extensionismo, ciência e tecnologia lhes são apropriadas? Em 29 de janeiro último, em Belém, durante o Fórum Social Mundial — cuja temática central foi Ciência e Democracia — tive a oportunidade de participar de uma oficina de integração que deu início à construção de uma rede inovadora entre comunidades extrativistas, técnicos e pesquisadores.

Uma rede sociotécnica de pesquisadores e comunidades em torno da tecnologia social dos encauchados já vinha sendo encabeçada há cinco anos pelo pesquisador Francisco Samonek, da Universidade Federal do Acre. Segundo ele, o extrativismo vegetal da borracha na Amazônia tornou-se insustentável após o ingresso da borracha oriunda dos seringais cultivados. Sem pesquisas e avanços tecnológicos, a produção foi mantida artificialmente por políticas públicas e setoriais (incentivos fiscais, monopólio estatal, créditos subsidiados e subvenções econômicas nacionais e regionais), que eram cíclicas e não suficientes para reestruturar o setor.

A essa rede poderão juntar-se pesquisadores de nanocompósitos já que a borracha natural vulcanizada sem defumação do látex é também um compósito vegetal. A tecnologia social conhecida como encauchados é um excelente exemplo de demanda social pela inovação tecnológica e pesquisa científica na química. Implantada em aldeias indígenas e reservas extrativistas, a técnica consiste na pré-vulcanização artesanal do látex nativo e na adição de substratos naturais, formando um composto homogêneo que pode ser utilizado na fabricação de bolsas, produtos artesanais e outros objetos. Com mais renda, a tecnologia social melhora a auto-estima das populações locais, que resgatam o sentimento de respeito pela floresta.

Para Samonek, um dos pontos-chave da tecnologia dos encauchados de vegetais da Amazônia é a pré-vulcanização do látex nativo. O processo é feito a partir do aquecimento do produto, de forma controlada, com a adição de água de cinzas, agentes vulcanizantes e substâncias naturais que permitem a sua estabilização e conservação.

Ao látex pré-vulcanizado são acrescentadas fibras vegetais curtas e corantes vegetais, formando diversas composições, que serão utilizadas para fabricar um leque de produtos prontos para o mercado. As composições geradas não são coaguladas, nem prensadas ou calandradas, nem secam em estufas, ao contrário dos processos industriais.

Segundo Samonek, recuperando técnicas indígenas ancestrais, a mistura é desidratada pela evaporação, em temperatura ambiente. Utilizando moldes artesanais de madeira, MDF, alumínio reciclado, unidades produtivas instaladas em comunidades indígenas e de seringueiros produzem toalhas de mesa, jogos americanos, suporte para mouse, suporte para panela, porta-treco, porta-chave, tapetes, luminárias, pinturas em látex, a mão, em camisetas com grafismos da cultura local, entre outros.

Na oficina durante o Fórum Social Mundial havia representantes da Fundação Djalma Batista, associada ao Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, Inpa, da Rede Nanotecnologia, Sociedade e Ambiente, da RTS, de universidades e convidados de movimentos sociais da Amazônia.

A segunda fase dos trabalhos do projeto colaborativo dos encauchados será iniciada com a integração de pesquisadores em nanocompósitos brasileiros, apoiado pelo Fórum e Rede de tecnologia Social para o Desenvolvimento Agrário do MDA, do Observatório do Movimento pela Tecnologia Social na América Latina, da UnB, o Poloprobio, uma organização social (Oscip) ligada ao Núcleo de Pesquisa e Extensão da Universidade Federal do Acre, e a RTS.

Nessa fase de aproximação, o mais importante foi assegurar a presença dos protagonistas do projeto colaborativo. Para esse fim, foi bem sucedida a construção das identidades pois o fundamental é que a procedência variada dos participantes seja assegurada. Existe, sobretudo, um lastro regional (Amazônia), nacional (MDA e universidades) e internacional (a área de pesquisa sobre nanocompósitos) . Esse projeto colaborativo constitui uma fonte de renda que é essencial para conter os desmatamentos e o avanço da agricultura intensiva sobre a região.

O movimento pela inovação sociotécnica ou tecnologia social nos obriga a fazer ciência & tecnologia e inovação por meio do fomento às formas de coordenação e integração em cadeias produtivas, aglomerados e arranjos produtivos locais (APLs) inovativos, economia solidária e formas associativas. Esses ambientes passam a ser mais relevantes do que atuar com empresas isoladas. Uma fábrica de camisinhas de R$ 65 milhões na Amazônia apresenta hoje no Acre problemas ambientais, falta de encadeamento e baixo índice de aproveitamento de matéria-prima. Redes sociotécnicas como a dos encauchados, ao contrário, geram uma combinatória entre aumento de renda, melhoria de nível cultural e educacional e busca de pesquisa científica.

A inovação tende a ser encarada como um processo democrático e aberto de participação social, não só afeto ao circuito do empresário, grupos gestores e engenheiros. Mas ocorre, também, junto às redes sociotécnicas e redes sociais. Elas abarcam trabalhadores no chão das fábricas e entidades comerciais, empreendimentos solidários, cooperativas e movimentos sociais e entidades civis vinculadas à economia solidária e finanças sociais.

O projeto colaborativo dos encauchados propõe esse enquadramento maior no fomento às políticas de CT&I adequadas às redes nacionais de instituições de ensino, pesquisa e extensão com atuação direta ou próxima das entidades civis da economia solidária. São diferentes sujeitos produtores-de-conhecimento fora das empresas e nos mais diversos ambientes que não operam com patentes, e sim com a co-autoria coletivo do conhecimento. Geram, dessa forma, mais coordenação e conhecimentos necessários para que diferentes níveis de integração entre tecnologia e inovações sociotécnicas sejam atingidos.

Ricardo T. Neder é professor doutor no Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS) da Universidade de Brasília (UnB), onde coordena o Observatório do Movimento pela Tecnologia Social na América Latina.

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Revista Conhecimento & Inovação
ISSN 1984-4395

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