Janeiro / fevereiro / maro de 2009
  • ARTIGO
  • Transferência de Tecnologia Universitária: Yissum, um modelo interessante
  • Renée Ben-Israel
Foto: Arquivo pessoal


Quando eu entrei na área de transferência tecnológica universitária, lembro de ter ouvido uma piada na qual o personagem tentava explicar o que era a transferência tecnológica. Transferir tecnologia da universidade para a indústria era um fenômeno meio híbrido e não muito compreensível. Na piada o personagem dizia: “Você já conseguiu explicar para a sua mãe o que faz no trabalho?”

Foram-se esses tempos e o assunto está em pauta. Daí o interesse geral pela Yissum, a Companhia de Transferência Tecnológica da Universidade Hebraica de Jerusalém, como um modelo de sucesso.

Yissum, “aplicação” em hebraico, foi o nome escolhido pela universidade ao criar, em 1964, sua companhia comercial (a Universidade Hebraica de Jerusalém foi fundada em 1925, antes da criação do estado de Israel) com a ideia de ser uma empresa claramente distinta da universidade, com um enfoque definido no desenvolvimento da pesquisa científica, ou antes, na criação de fundos para o desenvolvimento através de atividades comerciais.

Havia poucas companhias semelhantes na época, mesmo nos Estados Unidos; só a partir de 1980, com o estabelecimento do Bayh-Dole Act (que permitiu às universidades americanas manter a titularidade das patentes resultantes de pesquisa mantida por verbas federais) que a prática da transferência de tecnologia universitária tornou-se comum nos EUA. Considerando o fato de, em 1964, o estado de Israel ter menos de 20 anos de existência, esse é um indicador significativo da conscientização do país sobre o potencial de sua produção científica.

A criação de uma companhia para atuação no mercado, e não uma organização sem finalidades lucrativas e tampouco um departamento universitário, foi proposital. A Yissum atua como uma interface entre o mundo acadêmico e o comercial. Essa divisão de cargos permite à universidade comportar-se como universidade e a Yissum como entidade comercial.

A premissa por trás dessa filosofia é a seguinte: os pesquisadores de uma universidade são recrutados para ensinar, pesquisar e promover o progresso da ciência através de suas publicações, ou seja, não são contratados para fazer invenções. Mas, por meio da pesquisa, chega-se a invenções. Essas podem ter potencial econômico, e são o combustível da inovação tecnológica. Os resultados passíveis de comercialização merecem um tratamento distinto e profissional. Devem ser tratados como ativos da instituição. E a universidade proporciona um incentivo para quem contribui com invenções que possam gerar renda. Quando há receita, o inventor recebe 40% (privados) e 20% para a continuação da pesquisa em seu próprio laboratório; os demais 40% são divididos entre a Yissum e para fins gerais da universidade.

A transferência de tecnologia pode ser feita de diferentes modos, sendo o modelo clássico o licencimento, no qual a universidade entra como provedora do conhecimento (proporcionando uma licença para desenvolver, produzir, vender, distribuir), ligando-se à indústria para juntas encontrarem uma solução para um problema, um produto, um processo, um melhoramento técnico, que forneçam à indústria uma vantagem frente aos seus competidores. É um reconhecimento das capacidades e das limitações das partes e da vantagem sinergética que a parceria pode gerar. Com um pouco de sorte, um novo produto será lançado no mercado, proporcionando lucros à companhia e royalties à Yissum e, consequentemente, à universidade.

Parcerias desse tipo requerem, porém, uma infraestrutura adequada. Por um lado, excelência acadêmica de nível competitivo e, por outro, um corpo de indústrias interessadas em investir em pesquisa de risco, porque a pesquisa universitária está, em geral, num estágio muito incipiente. Na ausência de indústrias interessadas, muitas vezes o modelo de negócios será a criação de pequenas empresas para o desenvolvimento específico das novas tecnologias. Pode acontecer também a participação em incubadoras estatais/privadas de novas companhias ou em redes de desenvolvimento, consórcios, projetos regionais, nacionais ou internacionais, unindo capacidades estratégicas distintas.

Em termos de excelência acadêmica, a Hebraica é internacionalmente reconhecida e prestigiada tanto nas ciências humanas quanto nas ciências naturais. É a universidade que fornece a nossa “mercadoria”, tanto nos projetos internos quanto em projetos realizados com outras instituições de pesquisa, redes internacionais ou em parceria com a indústria. A universidade tem hoje 24 mil alunos, realiza por volta de 36% da pesquisa civil e forma um terço dos doutores do país. Seu orçamento de pesquisa gira em torno de 110 milhões de dólares, dos quais, cerca de 10% provém de acordos comerciais.

Os projetos de pesquisa — 380 novos projetos anuais — são mantidos pelos fundos governamentais/semi governamentais/privados, obtidos por meio de editais e bolsas de diversos tipos, e recursos provenientes dos acordos comerciais.

O quadro de recursos humanos da Yissum é formado por três departamentos principais: o de Licenciamento, ou Business Development, dividido por áreas de especialização científica e com o objetivo de levar as pesquisas ao mercado, negociar acordos, firmar contratos comerciais; o de Finanças, que trata dos pagamentos e da manutenção de todas as operações, assim como da arrecadação e gestão dos fundos e royalties gerados pela atividade da companhia; e o de Propriedade Intelectual, responsável pela proteção das invenções e da gestão do portifólio de patentes (por volta de 800 casos ativos) e por uma gama de atividades relacionadas à propriedade intelectual.

Esses departamentos são auxiliados por um assessor jurídico, um agente de patentes e um grupo de assistentes que mantém a operação ativa. Temos ainda uma pessoa responsável por acordos específicos de serviços à indústria. Terceirizamos parte dos contratos, a redação e manutenção das patentes e utilizamos diversos serviços de consultoria em todas as áreas. Toda essa atividade é gestionada por um diretor e, por fim, pela diretoria da Yissum, composta por pessoas da universidade (acionária única da Yissum), da indústria e do mundo financeiro.

A atividade da Yissum consiste em identificar os projetos com potencial econômico (sem interferir na liberdade acadêmica), proteger as invenções através de patentes ou outros meios (para viabilizar a comercialização), criar o modelo de negócios adequado, localizar parcerias comerciais e estratégicas, negociar acordos, gestioná-los para evitar “engavetamento” da tecnologia, gerar fundos para a continuação da pesquisa e seu desenvolvimento e, finalmente, concretizar o potencial e coletar os royalties.

A Yissum vem mantendo essa atividade com sucesso, ao longo dos anos, e tem orgulho de estar entre as 15 maiores empresas do gênero no mundo. O ano de 2008 fechou com uma receita de mais de US$ 54 milhões. Nesse mesmo ano tivemos mais de 120 novas invenções, depositamos 95 novos pedidos de patente e 51 contratos de licenciamento foram firmados (que somados aos contratos de serviços e de suporte totalizam quase 500 contratos).

Apesar do número respeitável de contratos assinados, uma análise um pouco mais cuidadosa revela que essa receita é devida principalmente a três grandes sucessos comerciais. O primeiro é o Exelon, um produto contra Alzheimer, o grande campeão de vendas e responsável pela maior receita da Yissum. A seguir está o Doxil, medicamento oncológico, produzido pela Alza, hoje Johnson & Johnson. E o terceiro são os tomatinhos cherry (híbridos) de diversos tipos, cores e formatos, cujas sementes são vendidas no mundo inteiro.

Entre os fatores que levaram ao sucesso da Yissum, aponto a universidade, a criatividade e excelência de seus pesquisadores; o ambiente favorável no estado de Israel, na percepção estratégica do valor de sua produção científica; a visão focalizada da universidade nas metas estabelecidas para a Yissum; o trabalho intensivo com fatores internos e externos; a flexibilidade; o profissionalismo de nosso trabalho, e um pouco de sorte. Isso nunca faz mal.

Renée Ben-Israel é diretora do Departamento de Propriedade Intelectual da Companhia de Transferência de Tecnologia — a Yissum — da Universidade Hebraica de Jerusalém.

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Revista Conhecimento & Inovação
ISSN 1984-4395

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