Julho / agosto de 2007
  • ARTIGO
  • Design e novos materiais
  • Ricardo Scura

Como designer, sou um profissional curioso e, diante da proposta de escrever um artigo sobre inovação, a idéia que me ocorreu foi que, talvez, fosse mais apropriado falar sobre o uso de materiais tecnológicos para criar projetos inovadores, ao invés de projetos inovadores de materiais. Mesmo sem dados consolidados para confirmar minha convicção, praticamente toda pesquisa de ponta no desenvolvimento e aperfeiçoamento de materiais é motivada pelos interesses de grandes corporações que financiam pesquisas avançadas buscando soluções de grande impacto econômico.

Isso nos remete a setores com características globais e consumos elevados de determinados materiais como, por exemplo e para ficar apenas com dois, os setores de construção civil e vestuário. Ou seja, é muito mais provável que nos próximos anos surja um novo material criado especialmente para revestir fachadas de edifícios do que um outro para produzir cadeiras, e digo cadeiras não por acaso já que nenhum designer encerra a carreira sem ter esboçado ao menos uma.

Está aí a primeira sugestão: beba da fonte de outros setores produtivos diferentes daquele do produto que você está projetando, pesquise, principalmente nos mais dinâmicos. Para concretizar essa concepção, cito o caso da DuPont, que produz um tipo de papel denominado Nomex, feito de um polímero poliamida aromático (conhecido como aramida). O papel é obtido por mistura de duas fórmulas de aramida, pequenas partículas fibrosas aglutinantes (fibrids) e fibras curtas (flocs). Após a mistura ser transformada numa estrutura contínua em folha, por meio de uma papeleira, são realizadas as etapas de densificação e adesão interna por meio de calandragem a alta temperatura, da qual resulta um papel robusto, flexível, de excelente resistência à ruptura e abrasão e com notáveis propriedades elétricas.

O Nomex suporta sobrecargas elétricas de pequena duração e temperaturas até 200 graus produzem pouco ou nenhum efeito nas propriedades elétricas e mecânicas. Por não serem digeríveis, não são atacados por insetos, fungos ou bolores. Sob uma umidade relativa de 95%, preservam 90% da rigidez dielétrica observada em secura total, não produzem reações tóxicas, não se fundem e não suportam combustão sob um índice de oxigênio a 220 graus C superior a 20,8. Por todas essas características, quase a totalidade de Nomex fabricada é usada como isolante em motores elétricos e geradores.

Se o tal papel não rasga, não pega fogo nem derrete, não conduz eletricidade, não é tóxico, não embolora e não deforma com a umidade, além de ter o aspecto parecido com pergaminho, por que não utilizá-lo como defletor ou cúpula para luminárias? Foi o que pensou o designer Christian Ullmann quando convidado a desenvolver uma peça para o catálogo de “novos materiais, componentes e processos” elaborado pelo Centro São Paulo Design. Outra abordagem para projetos inovadores é o rompimento de paradigmas: projetar o inusitado, a partir da utilização dos materiais que revertem a lógica estabelecida em sua produção original, ou existente no consciente de cada um de nós.

A alemã Tecnaro desenvolve e distribui a Arboform, resina vegetal obtida a partir da lignina, subproduto do processamento da polpa de celulose. Trata-se de uma resina biodegradável, cuja composição permite a moldagem de peças por injeção, ou seja, com os moldes em que se produzem o gabinete de um telefone ou um teclado de computador, pode-se obter as mesmas peças com aparência e algumas outras propriedades da madeira e com características formais que acreditávamos possível apenas para os plásticos. A indústria gaúcha de produtos de plástico Coza, já colocou no mercado peças com formas idênticas, injetadas em plástico e em resina.

O Corian, fabricado pela já citada DuPont, existe há mais de 30 anos e está disponível no mercado nacional há mais de 20. Contudo, seu uso nesse tempo todo tem sido praticamente restrito para a confecção de tampos de balcões, bancadas de cozinhas e laboratoriais, além de cubas. Composto por 1/3 de acrílico e 2/3 de minerais naturais, pode ter aparência de granito, inclusive apresentando a mesma sensação de textura e temperatura. Devido à presença do acrílico, pode ser termomoldado e colado com emendas imperceptíveis, permitindo formas arrojadas, impossíveis para uma placa de granito.

Mas a surpresa não está sempre nas propriedades inesperadas da matéria-prima. Em 2005, o escritório Chelles & Haiashi venceu o Prêmio Abiplast Design com o projeto de um tanque de lavar roupas encomendado pela Tigre. Sempre que olho para o produto, imagino que o que deve ter sensibilizado mais o júri não foi o valor estético da peça, o mais popular entre os requisitos julgados em projetos de autoria de designers, até porque a aparência do tanque não difere em muito de qualquer tanque doméstico mas, sim, a quebra de paradigma ao utilizar o plástico, muito mais leve, no lugar da cerâmica.

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Revista Conhecimento & Inovação
ISSN 1984-4395

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