Outubro / novembro / dezembro de 2008
  • ARTIGO
  • Cidades compactas: concentração de tecnologia, inovação e conhecimento
  • Carlos Leite
Foto: Arquivo pessoal


P
or que as metrópoles contemporâneas compactas — densas, vivas e diversificadas nas suas áreas centrais — propiciam um maior desenvolvimento sustentável, concentrando tecnologia e gerando inovação e conhecimento em seu território?

Nas décadas recentes, tem-se observado uma emergência comum às grandes metrópoles mundiais, as cidades-globais: antigos espaços urbanos centrais estão perdendo boa parte de suas funções produtivas, tornando-se obsoletos e, assim, verdadeiros guetos de degradação urbana, social e ambiental. Tratam-se dos chamados vazios urbanos, wastelands ou brownfields (quando contaminados).

Do ponto de vista urbanístico, essas transformações resultaram em uma série de problemas comuns que vêm afetando nossas cidades hoje. O abandono das áreas centrais metropolitanas pelo setor industrial e a conseqüente degradação urbana de espaços com potenciais tão evidentes de desenvolvimento — afinal, dotados de preciosa infraestrutura — é face da mesma moeda que expõe a urbanização ilegal, porém real e incontrolável, de nossas periferias, o chamado espraiamento urbano, cujas conseqüências são dramáticas em termos de total insustentabilidade ambiental, social, econômica e urbana.

Em termos de desenvolvimento econômico, as novas tendências de organização do espaço urbano estão promovendo um rápido e dinâmico rearranjo da geografia da produção — não apenas desindustrialização, mas também reindustrialização, relocalização dos setores produtivos e clusters urbanos. O carro-chefe desta nova metrópole produtiva pós-fordista — a cidade-global — é o setor de informação & tecnologia (IT), menos poluente ambientalmente e com menor necessidade de espaço físico, além de demandar como principal capital recursos humanos bem qualificados. Ou seja, trata-se da emergência da chamada classe criativa na cidade contemporânea, como já nos tem mostrado há alguns anos o economista americano Richard Florida (1).

Ou seja: a partir dos novos formatos de desenvolvimento econômico local, emergem ambientes inovadores e clusters urbanos nessas “cidades criativas”.

As áreas industriais obsoletas se tornam alvo de atuação dos grandes projetos urbanos, principalmente nas metrópoles dos países desenvolvidos, como concentradoras de estratégias de intervenção no espaço ora degradado e subutilizado. É a reconversão industrial. Vazios urbanos se tornam palco da implantação desses projetos aliados ao surgimento de políticas urbanas de desregulamentação urbanística e parcerias entre o poder público e iniciativa privada.

Tratam-se dos chamados clusters urbanos criativos. A Cidade Multimídia em Montreal e os clusters de IT de São Francisco Mission Bay e Barcelona 22@ (antigo bairro industrial de Poblenou) são os casos de maior porte em meio a dezenas desses novos territórios implantados em áreas centrais deterioradas em cidades dos EUA, Europa e Ásia.

Esses clusters urbanos pautam sua estratégia central produtiva em serviços avançados, parte da chamada economia criativa. Através de parcerias público-privadas sempre calcadas na criação eficiente de agências de desenvolvimento específicas, tais territórios têm conseguido rápido sucesso nos processos de regeneração urbana e reestruturação produtiva.

Qual a explicação para tão rápidas transformações que, de uma só estocada, se faz a partir de mutações econômicas, urbanísticas e culturais neste início de século 21?

As metrópoles são o locus da diversidade — da economia à ideologia, passando pela religião e cultura. E esta gera inovação. As maiores cidades do hemisfério norte descobriram isso já há alguns anos e têm se beneficiado enormemente —inclusive em termos da atração de novos investimentos —desse diferencial, ou como diriam os economistas, dessas externalidades espaciais.

Enquanto ambientes únicos de uma desejável, democrática e estimulante concentração de diversidade — “a vida econômica se desenvolve através da inovação”, como diria Jane Jacobs — tais cidades têm investido pesadamente na regeneração de suas áreas centrais improdutivas e esvaziadas através da implementação de clusters tecnológicos como estratégia de alavancagem de amplos processos de recuperação urbana e reestruturação produtiva do território (2).

Lembre-se que ambientes com alta concentração de pessoas criativas crescem mais rapidamente e atraem mais gente de talento. Metrópoles com clusters de alta tecnologia contêm maior número de pessoas de talento do que outras. Talento, tolerância e diversidade são os ingredientes indissociáveis no crescimento dessas metrópoles que lideram o ranking de cidades criativas. Em seu mais novo estudo, Florida mostra como o crescimento econômico das 11 cidades melhores posicionadas no seu ranking de criatividade (“as 11 metrópoles mais criativas dos EUA”) tiveram um crescimento no número de empregos significativamente maior do que aquelas que ficaram nas 11 últimas posições. “Why cities without gays and rock bands are losing the economic development race” é o novo slogan desse novo guru do desenvolvimento americano (3).

Outras pesquisas demonstram que maiores densidades populacionais urbanas estão diretamente ligadas a maior desenvolvimento de alta tecnologia, gerando outro interessante debate contra o tradicional modelo americano de suburbanização e baixa densidade (urban sprawl) e em defesa das grandes metrópoles com muito maior densidade (4).

E o desenvolvimento sustentável?

Em época de imperativa preocupação com o desenvolvimento sustentável, é de se destacar que 2/3 do consumo mundial de energia se dá nas cidades, portanto, falar em aquecimento global e sustentabilidade é falar das cidades sustentáveis. Cidades sustentáveis são, necessariamente, compactas, densas. Como se sabe, maiores densidades urbanas representam menor consumo de energia per capita: em contraponto ao modelo “beleza americana” de subúrbios espraiados no território com baixíssima densidade, as cidades mais densas da Europa e Ásia são hoje modelos na importante competição internacional entre as “global green cities”, justamente pelas suas altas densidades.

Assim, parece-nos evidente o papel único das metrópoles na nova rede de fluxos mundial e processos inovadores. O potencial do território central regenerado e reestruturado produtivamente é imenso na nova economia, desde que planejado estrategicamente.

Sob o prisma do desenvolvimento urbano sustentado, voltar a crescer para dentro da metrópole e não mais expandi-la é outro aspecto altamente relevante nesses casos: reciclar o território é mais inteligente do que substituí-lo. Reestruturá-lo produtivamente é possível e desejável no planejamento estratégico metropolitano. Ou seja: regenerar produtivamente territórios metropolitanos existentes deve ser face da mesma moeda dos novos processos de inovação econômica e tecnológica.

As intervenções exitosas no exterior têm nos mostrado possibilidades de enfrentamento de problemas comuns às grandes metrópoles pós-industriais, principalmente no reaproveitamento sustentado dos seus vazios urbanos. Atividades econômicas, voltadas para os setores da informação e comunicação, mas vinculadas à vocação do território, com novos valores locacionais, aliados a políticas de desenvolvimento econômico e urbano local e a gestão urbana eficiente, podem contribuir para a redução do quadro de esvaziamento produtivo de áreas centrais a partir da reutilização dos espaços vagos, combatendo a perda de vitalidade do tecido urbano. Ou seja: promove-se o desejável redesenvolvimento urbano sustentável.

“Regenerar produtivamente territórios metropolitanos existentes deve ser face da mesma moeda dos novos processos de inovação econômica e tecnológica”

Carlos Leite é arquiteto e urbanista; professor do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo e professor de cursos de extensão e MBA (FIA-USP) no Brasil e no exterior. Autor de Metrô x Retrô: Califórnia 2004. Cidades, diversidade, inovação, clusters e projetos urbanos.

Referências bibliográficas

1. Richard Florida. Cities and the creative class, New York: Routledge, 2004.
2. Jane Jacobs. Cities and the wealth of nations. Nova Iorque, Random House, 1984.
3. Richard Florida. The rise of the creative class. New York: Routledge, 2002.
4. John Sperling. The great divide: retro vs. metro America. New York, Polipoint, 2004.

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Revista Conhecimento & Inovação
ISSN 1984-4395

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