Outubro / novembro / dezembro de 2008
  • ARTIGO
  • Abordagens abertas e as implicações para a gestão de C,T&I
  • Sergio Salles-Filho, Adriana Bin e Ana Flávia Portilho Ferro


As tendências recentes para a compreensão das relações entre ciência, tecnologia e inovação (C,T&I) têm sido fundamentalmente marcadas por características das abordagens abertas, expressas nos conceitos de open science e open innovation. Essas abordagens estão baseadas no aprofundamento dos mecanismos de gestão de processos coletivos característicos da produção e apropriação social do conhecimento e percepção de ganhos associados à capacidade de produzir, buscar, reconfigurar e negociar contínua e sistematicamente esse ativo.

O elemento central utilizado para caracterizar as abordagens abertas é o da colaboração. Cabem, no entanto, duas questões: qual o significado atual dos termos open science e open innovation e em que medida a idéia de colaboração implica em novos mecanismos de organização e gestão além daqueles subjacentes ao formato de redes de pesquisa, tais como divisão de trabalho, compartilhamento de informações, redução de custos e riscos e ampliação do acesso a conhecimento e recursos (1)?

O termo open science não é novo e denomina o modo de se fazer ciência pós-revolução científica do final do século XVI e início do século XVII. A partir desse marco, as modernas estruturas da ciência passaram a valorizar o compromisso com a rápida divulgação dos achados científicos (2). Hoje, no entanto, esse termo é usado num sentido muito mais amplo de divulgação e de desenvolvimento compartilhado, incluindo dois outros conceitos mais recentes: open acess e open data.

O open acess relaciona-se a um movimento em prol da livre circulação e acesso ao conteúdo das publicações científicas, sem qualquer tipo de restrição (inclusive de pagamento). A idéia que está por trás não é apenas a de dar acesso ao conhecimento, mas a de que o conhecimento cresce tão mais rápido quanto mais circula. As regras mertonianas da “República da Ciência” seguem presentes nessa noção ampliada de open science: comunalismo, universalismo, desinteresse, originalidade e ceticismo (3).

O open data, por sua vez, tem como elemento norteador a abertura e a ampla divulgação do conteúdo científico durante o desenvolvimento da pesquisa. Esse conceito origina-se nos movimentos open source ou free software, ambos dedicados à abertura dos códigos de software, e indica um esquema colaborativo e distribuído de se fazer ciência.

Três aspectos sustentam a abordagem open science ampliada: completa e imediata publicação dos resultados; ausência de restrições de propriedade intelectual; e total transparência de dados e discussões pré e pós-publicação.

Já o termo open innovation foi cunhado por Chesbrough em livro homônimo de 2003 e pressupõe que as empresas devem utilizar fontes externas de idéias para a geração de inovações, assim como comercializar idéias geradas internamente, quando essas não se adequarem às suas competências essenciais. O open innovation se contrapõe ao modelo tradicional adotado pela maioria das grandes empresas durante o século XX, caracterizado por pesados investimentos em centros de P&D in-house, com a internalização de ativos considerados estratégicos. No entanto, o contexto em que estão inseridas essas empresas vem mudando, forçando-as a buscar alternativas baseadas em uma maior mobilidade de recursos humanos e dos fluxos de conhecimento. É interessante observar que as primeiras empresas a adotarem iniciativas mais abertas a partir da percepção das oportunidades dos modelos abertos são grandes corporações como IBM, Lucent, Intel e Novartis (5,6).

Tapscott e Williams (6) denominam essa nova era de colaboração em massa entre organizações e indivíduos, que se reflete em um novo desenho econômico e social, de wikinomics. Dentro do contexto da wikinomics, a idéia de peering (ou colaboração) como base para novos modelos de produção de conhecimento aproxima-se bastante das concepções de open science ampliado e de open innovation. Na linha da open science, esses autores exploram a idéia da ciência colaborativa, caracterizada não apenas pelas publicações em espaços abertos, mas pela ampliação no nível de colaborações na resolução de problemas científicos. Já no que se refere ao conceito de open innovation, trata-se exatamente da utilização de fontes externas de idéias para aumentar a competitividade na geração de novas tecnologias, assim como da comercialização de idéias que não se alinham ao modelo de negócio da organização.

Em resumo, pode-se afirmar que três pontos de convergência distinguem as abordagens abertas das formas tradicionais de criação e produção do conhecimento. O primeiro deles refere-se a uma de suas principais bases de sustentação, pautada no desenvolvimento, uso e acesso à tecnologia da informação (TI), pois é a partir desse tipo de tecnologia que os indivíduos e as organizações encontram formas para empreender a colaboração em massa. Iniciativas tais como as plataformas wiki, portais, redes virtuais, comunidades de prática são alguns exemplos de contribuição da TI para a operacionalização de modelos abertos.

A aproximação das duas comunidades — a “república da ciência” e o “reino da tecnologia” — caracterizando o intricamento atual entre C,T&I, é o segundo ponto de convergência, na medida em que promove uma espécie de mútua contaminação de ethos originalmente diferentes: tanto elementos de apropriabilidade têm permeado a ciência como elementos de divulgação (e abertura) têm se ampliado no reino da tecnologia e da inovação. Todavia, cabe destacar que, ainda que marcadamente fundados na lógica da colaboração, os elementos que dão suporte às tradicionais formas organizacionais e institucionais da C,T&I são mantidos, ou seja, respeita-se a autoria das publicações científicas e o gerenciamento da propriedade no âmbito do desenvolvimento tecnológico e da inovação.

O terceiro ponto refere-se às novas estruturas de governança que estão emergindo a partir das experiências das abordagens abertas, capazes de congregar coordenação, eficiência, eficácia e efetividade com liberdade de criação e questionamento, assim como com a existência de fluxos mais dinâmicos de circulação do conhecimento. Segundo Christensen et al. (7), os modelos abertos exigem formatos organizacionais e de gestão da inovação bem mais complexos do que aqueles usualmente empregados em atividades de pesquisa. Assim, ser open não significa ser desorganizado, e sim o contrário.

O desafio é justamente ser capaz de implantar um modelo de gestão pautado na sistematização da busca, aproveitamento e negociação do conhecimento e um modelo organizacional que valorize a horizontalidade em lugar das tradicionais hierarquias. Complementarmente, novas concepções acerca do seu caráter estratégico de recursos e ativos emergem, modificando as formas usualmente empreendidas de controle e proteção de tais recursos e ativos.

Há como afirmar, portanto, que a diferença que marca as recentes formas de colaboração das formas usuais é tênue e revela uma visão menos conservadora em relação aos ativos que devem ser mantidos sob os limites de uma determinada organização. Assim, ainda que o conhecimento seja crescentemente reconhecido como o ativo estratégico de grande importância para garantir vantagens competitivas, a noção de que o conhecimento cresce mais rápido quanto mais circula e que economias de escala e escopo associadas à sua produção são positivas e indetermináveis, justificam a colaboração nesse campo. Outras razões, associadas a pretensões ideológicas, entretenimento, vaidade, recompensa e aprendizado, complementam essa justificativa fundamental.

Como organizar tais formas de se fazer ciência, desenvolver tecnologias e promover inovações é um desafio para o qual ainda não se tem respostas suficientemente completas. É, sim, uma revolução que se anuncia e que vai exigir certamente uma nova gestão de C,T&I.

“O desafio é justamente ser capaz de implantar um modelo de gestão pautado na sistematização da busca, aproveitamento e negociação do conhecimento...”

Sergio Salles-Filho é professor do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) do IG da Unicamp e pesquisador associado do Grupo de Estudos sobre Organização da Pesquisa e da Inovação (Geopi) (monteirosalles@gmail.com). Adriana Bin é professora da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp e pesquisadora associada do Geopi (adriana.bin@gmail.com). Ana Flávia P. Ferro é doutoranda em política científica e tecnológica (DPCT/Unicamp) (anaflaviaferro@gmail.com).

Referências bibliográficas

(1) CALLON, M. “The dynamics of techno-economic networks”. In: Coombs, R.; Saviotti, P. e Walsh, V. (eds). Technological change and company strategies. London: Academic Press, 1992. pp.72-102.
(2) DAVID, P. “Understanding the emergence of ‘open science’ institutions: functionalist economics in historical context”. Ind. Corp. Change, v.13, n.4, 2004. pp. 571-589.
(3) DAVID, P. “Common agency contracting and the emergence of ‘open science’ institutions”. The American Economic Review, v.88, n.2, may 1998. pp. 15-21.
(4) CHESBROUGH, H. W. Open Innovation: the new imperative for creating and profiting from technology. Boston: Harvard Business School Press, 2003.
(5) CHESBROUGH, H. W. Open Business Models: how to thrive in the new innovation landscape. Boston: Harvard Business School Press, 2006.
(6) TAPSCOTT, D; WILLIAMS, A. Wikinomics: como a colaboração em massa pode mudar o seu negócio. Trad. Marcello Lino. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2007.
(7) CHRISTENSEN, J.F. et al. « The industrial dynamics of open innovation: evidence from the transformation of consumer electronics”. Research Policy, v.34, 2005. pp. 1533-1549.

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Revista Conhecimento & Inovação
ISSN 1984-4395

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