Outubro / novembro / dezembro de 2008
  • CAPA
  • Novos desafios da reciclagem
  • Resíduos dos próprios processos recicladores e mudanças na composição do lixo pedem novas soluções
  • por Carolina Cantarino
Reciclagem de lixo tecnológico realizada pela empresa A7, em
Jaguariúna - SP: funcionário separa toneladas de placas de com-
putadores moídas que serão exportadas e recicladas na Europa e
Canadá. Foto: Eduardo Nicolau/Agência Estado


O Brasil é um dos países que mais reciclam no planeta. Segundo dados da Associação Brasileira de Embalagens (Abre), dos anos de 2003 e 2004, 46% dos recipientes de vidro são reciclados no país; 86% do papel é reciclado; 22% de embalagens longa vida; 78% de latinhas de alumínio e 16,5% dos plásticos. E a tendência é que esses números cresçam. Mas não se pode esquecer que, ao mesmo tempo em que a reciclagem cresce, a quantidade de lixo também aumenta. E, tanto um quanto o outro colocam novos desafios. Um problema trazido pela reciclagem e pouco discutido é: o que fazer com os resíduos gerados durante os próprios processos recicladores? Outra questão importante diz respeito não somente à quantidade de lixo mas à sua, digamos, qualidade: o crescimento da chamada sucata eletrônica composta por milhares de celulares, computadores, baterias, pilhas, televisões e outros aparelhos eletroeletrônicos.

Estamos preparados para enfrentar esses novos desafios? “Tecnologia nós temos. Basta olhar para o elevado número de pesquisas produzidas nos departamentos de engenharia de materiais, de química, arquitetura e etc. O desafio é inserir essa tecnologia na indústria. Não estamos conseguindo fazer isso por conta do alto custo”, afirma Dilma Alves Costa, engenheira química e professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), envolvida com pesquisas sobre reciclagem há mais de 20 anos, particularmente no campo dos polímeros.

Josânia Gondim, bióloga que pesquisa a reciclagem mecânica de plástico, aponta os altos custos como o velho e principal obstáculo para o reaproveitamento de produtos descartados. Segundo ela, porém, o encarecimento da reciclagem se deve muito mais aos impostos do que aos processos de reciclagem em si: “nos países europeus, materiais reciclados não são taxados ou o valor do imposto que incide sobre eles é menor do que sobre a matéria-prima virgem. No Brasil, o valor é o mesmo. Daí as indústrias se questionam: por que devo reciclar?”

Para reverter esse quadro, a bióloga, que é coordenadora da Agenda 21 no município paulista de Hortolândia, defende a parceria entre empresas e poder público através da instituição de leis de incentivo fiscal: aquelas que investissem na estruturação de usinas de reciclagem, por exemplo, poderiam ter seus impostos reduzidos. Josânia lembra que propostas semelhantes a essa — como a criação de selos verdes para empresas que invistam em reciclagem — estão sendo discutidas pelos municípios que integram a região metropolitana de campinas.

O custo do transporte é outro fator impeditivo. O número de cidades brasileiras que contam com serviços de coleta seletiva é irrisório. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos 5507 municípios brasileiros, apenas 451 possuem coleta seletiva e 352 contam com usinas de reciclagem de lixo. Além disso, outro fator decisivo para consolidar o conceito diz respeito à participação da população. “Nos países desenvolvidos, a conscientização não é sobre reciclagem mas sobre a prática do consumo consciente, aproveitando-se as sobras dos alimentos, consumindo frutas e verduras da estação, evitando-se mercadorias com muitas embalagens”. No Brasil, algumas iniciativas pontuais têm ido nessa direção. No ano passado, a prefeitura de São Paulo desenvolveu uma campanha propondo que os consumidores levassem suas próprias sacolas de casa para diminuir o uso de saquinhos plásticos. Algumas redes de supermercado também têm adotado ações nessa direção, seja vendendo as embalagens ou estimulando o uso de sacolinhas de longa duração.

Legislação

Uma discussão sobre o assunto está em andamento no país, no que se refere à criação de uma legislação que obrigue a indústria a investir em reciclagem. A proposta está presente na Política Nacional de Resíduos Sólidos, Projeto de Lei nº 1991 encaminhado ao Congresso Nacional em 2007. O princípio seria o mesmo da legislação européia que trabalha com a idéia da “logística reversa”: o fabricante é responsável pelo produto ao longo de toda sua vida útil, inclusive pelo pós-consumo. É o que muitos querem que seja feito em relação à indústria de bebidas que planeja iniciar a venda de cerveja em garrafas plásticas.

Dilma Alves lembra que esse tipo de legislação já existe em relação aos pneus e tem funcionado. Uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), de 1999, estabelece que fabricantes e importadores sejam responsabilizados pela destinação pós-uso dos chamados pneus inservíveis (sem condições de serem reformados).

Esse tipo de pressão levou a variados usos desse descarte da indústria de pneus, como a produção de tapetes de automóveis e solados de calçados, que estão entre as reutilizações mais comuns. Alguns processos de reciclagem química de pneumáticos ainda são caros e difíceis porque exigem a desvulcanização para que a borracha volte a ser matéria-prima e possa ser reutilizada na fabricação de novos pneus, por exemplo. Pneus triturados são utilizados, também, como combustível nos fornos das indústrias de cal e cimento.

No processo de reciclagem, porém, aparecem novas questões a serem resolvidas: o que fazer com os gases produzidos durante o processo? A emissão de CO2 é um dos grandes problemas nesse caso. “Tudo passa pelo tipo de rejeito que a reciclagem irá gerar. Nosso grande problema é sabermos o que fazer com os resíduos da própria reciclagem. Isso envolve mais custos num processo que já é dispendioso”, alerta Dilma Alves.

Resíduos da reciclagem mecânica

Uma questão importante e quase nunca abordada quando se trata do assunto da reciclagem, é a necessidade do desenvolvimento de novas tecnologias para gerenciar os resíduos oriundos da própria reciclagem.

Josânia Gondim desenvolveu, em seu mestrado na Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp, uma tecnologia pioneira para o tratamento e o aproveitamento da água utilizada durante a reciclagem mecânica do plástico, bem como de outros resíduos resultantes do processo. O projeto foi desenvolvido junto a uma indústria de reciclagem da cidade de Sumaré (região metropolitana da Campinas), que investiu cerca de 32 mil reais na remodelação do seu sistema de tratamento de efluentes resultantes da lavagem do plástico.

O processo de reciclagem mecânica começa pela separação manual de três diferentes tipos de plástico: o polipropileno (PP), utilizado na fabricação de autopeças e tampas de embalagens; o propileno de baixa densidade (PEBD), usado nas sacolas plásticas, embalagens de alimentos, produtos de limpeza, frascos de xampu; e o propileno de alta densidade (PEAD), usado em galões e brinquedos. Depois dessa triagem, os plásticos são lavados, centrifugados e secos.

A segunda etapa consiste na fusão e adição. Por fim, durante a chamada extrusão, a massa resultante desse processo passa por orifícios, tomando a forma de filamentos que serão, ainda, transformados em granulados para serem utilizados na fabricação de novos objetos.

A tecnologia criada por Josânia consiste no tratamento da água utilizada durante a fase inicial da lavagem. Os efluentes resultantes dela são colocados em tanques de sedimentação onde, pela diferença de densidade, os plásticos — que seriam descartados — podem ser separados, assim como rótulos de embalagens, cola e outros resíduos.

Os efluentes ainda passam por uma peneira estática para a retirada de resíduos que ainda possam restar. Depois vão para um tanque para a degradação da matéria orgânica e, em seguida, para o chamado reator anaeróbico compartimentado (RAC) no qual, por meio de um processo anaeróbico, os poluentes são removidos. O lodo gerado durante essas duas etapas pode ser utilizado como fertilizante devido às altas quantidades de nitrogênio e fósforo e os baixos índices de metais pesados nele presentes.

A etapa final ocorre em tanques com taboa (planta aquática encontrada abundantemente em brejos e várzeas) e brita, que funcionam como filtros. O processo, ao todo, dura 33 horas.

“A tecnologia deverá ser adotada por outros empresários. Já estou em contato com uma usina de reciclagem de Santo André, que também deverá implantar o sistema” destaca Josânia que, em seu doutorado, irá enfrentar um novo desafio: o reaproveitamento da água empregada no processo, o que pode levar a uma redução de 80% na quantidade utilizada. Diferentemente do que se imagina, o custo mais alto não vêm do gasto com a energia necessária para as máquinas extrusoras que trituram o plástico, mas da água utilizada no processo de reciclagem.

Sucata eletrônica

Outro desafio recente para a reciclagem é a mudança na composição do lixo urbano com a presença cada vez maior dos chamados resíduos tecnológicos como computadores, celulares, TVs, aparelhos de som, pilhas, baterias e lâmpadas. Além do consumismo que alimenta o desejo de se adquirir o último modelo de celular, muitas vezes é mais barato comprar um aparelho novo do que mandar consertar um que esteja quebrado. O que deve ser feito com esses aparelhos descartados?

O destino dos aparelhos caseiros e pessoais tem sido os aterros sanitários mas algumas empresas brasileiras oferecem a reciclagem desses materiais para grandes fabricantes que querem dar um fim a produtos com defeitos ou obsoletos. Esse é o caso da Oxil. Localizada na cidade de Paulínia, a empresa é responsável pelo gerenciamento do lixo eletrônico de grandes fabricantes de eletrodomésticos e eletroeletrônicos como geladeiras, celulares, computadores e seus periféricos.

O sistema de manufatura reversa criado pela empresa consiste na desmontagem, separação e trituração dos materiais que são, por fim, encaminhados para outras empresas, para a fabricação de novos produtos, impedindo, assim, que esse lixo eletrônico tenha como destino final os aterros sanitários. O sistema atinge um índice de reciclagem de 99,7% das 2 mil toneladas de sucata de aparelhos eletroeletrônicos e de informática recebidos anualmente pela empresa. “O processo não existe em nenhuma outra empresa no Brasil. Nenhuma outra consegue atingir nosso índice de reaproveitamento de materiais para a fabricação de novos produtos”, lembra Talita Ancona de Paula, analista ambiental da Oxil.

Assim, um computador, por exemplo, ao ser desmontado, dá origem a 41% de plástico, 40% de metais ferrosos, 10% de componentes eletrônicos, 6,7% de materiais como borracha e vidro e 2% de metais não-ferrosos. Todo esse material retorna à cadeia produtiva, dando origem a novos produtos.

Além do reaproveitamento, a proteção da marca dos clientes é outra preocupação da Oxil. A empresa faz questão de manter o sigilo de seus clientes, garantindo a destruição dos manuais, adesivos e etiquetas das marcas. Um laudo de destruição é apresentado ao fabricante, contendo, inclusive, o registro fotográfico de cada etapa do processo.

“Muitas empresas fazem apenas a trituração e exportam o material para a África ou China. Nesses casos, o material não é todo reaproveitado e, muitas vezes, descartado no meio ambiente de forma inadequada”, afirma a analista ambiental ao mencionar uma solução corrente entre muitas empresas brasileiras e estrangeiras que apenas moem a sucata eletrônica e a exportam para países em desenvolvimento.

A prática vem sendo denunciada há alguns anos por organizações não-governamentais como a Basel Action Network que produziu um documentário sobre a cidade chinesa de Guiyu, considerada o maior “e-lixão” que se conhece. Milhares de homens, mulheres, velhos e crianças desmontam e derretem computadores em fogareiros de carvão ou mesmo em vasilhas contendo soda cáustica, em busca de metais nobres ficando expostos à contaminação por elementos tóxicos como mercúrio, cádmio, chumbo e níquel. A China proibiu a importação de lixo eletrônico em 2000, mas a atividade, segundo a BAN, ainda permanece.

No Brasil, ainda não existe regulamentação específica para tratar da sucata eletrônica. Uma das medidas previstas na Política Nacional de Resíduos Sólidos é a responsabilização das indústrias e revendedores pelo destino ambientalmente correto dos aparelhos eletroeletrônicos após o consumo. 

Reciclagem química de pneus

A Petrobras já desenvolveu tecnologia para reciclagem química de pneus: misturados a rochas de xisto, pneus velhos estão sendo transformados em óleo combustível para usinas termelétricas, na Unidade de Negócios da Industrialização do Xisto da Petrobras, na cidade de São Mateus do Sul, no Paraná. A nova tecnologia vem sendo aplicada desde maio de 2001, e a unidade recebe pneus inservíveis de empresas de diversas regiões do país. Resultam ainda do co-processamento de pneus e xisto, gases e enxofre, utilizados na agricultura e por indústrias farmacêuticas. Os arames dos pneus são reciclados por siderúrgicas.

Reciclando metais pesados

A ausência de tecnologia para separar as substâncias tóxicas que compõem alguns equipamentos tem comprometido seu processo de reciclagem. Foi pensando na necessidade de separar componentes e fazer a descontaminação que a Tramppo desenvolveu um processo para reciclagem de lâmpadas fluorescentes. Através de um sistema de vácuo combinado à alta temperatura, o mercúrio, metal tóxico presente nas lâmpadas, é separado de outros elementos como cobre, vidro e alumínio, possibilitando que todos eles sejam reutilizados como matéria-prima. A empresa faz parte do Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec) da USP e já iniciou suas atividades comerciais. Um de seus clientes é a Corn Products Brasil, fabricante de ingredientes derivados do milho. A Trampoo recicla as cerca de 2 mil lâmpadas descartadas por ano pela fábrica. No Brasil cerca de 100 milhões de lâmpadas fluorescentes são consumidas por ano e 94% delas são descartadas em aterros sanitários, contaminando o solo e a água com metais pesados.

Cadeia de reciclagem

O Brasil desenvolveu uma tecnologia de reciclagem inédita no mundo: a de embalagens longa vida, compostas por várias camadas de papel, alumínio e plástico. A chamada tecnologia de plasma permite a separação do plástico e do alumínio que correspondem, respectivamente, a 20% e 5% de cada embalagem. Até então, só o papel (75% da embalagem) era separado e reciclado pela Klabin: cada tonelada de embalagem cartonada reciclada gera cerca de 650 quilos de papel. Localizada em Piracicaba, a unidade inaugurada em 2002 tem capacidade para reciclar 32 mil toneladas de embalagens longa vida. O projeto foi desenvolvido através de uma parceria entre a Tetrapak, a Klabin, a Alcoa e a TSL Ambiental, que gerencia a fábrica. O sistema consiste na utilização de energia elétrica para a produção de um jato de plasma a 15 mil graus Celsius, capaz de aquecer a mistura de plástico e alumínio. O plástico é transformado em parafina (reaproveitada por indústrias petroquímicas) e o alumínio em lingotes que são reutilizados pela Alcoa, empresa que fornece as folhas de alumínio utilizadas na fabricação das embalagens. A cadeia da reciclagem se fecha, assim, com a produção de novas embalagens cartonadas pela Tetrapak. A tecnologia foi desenvolvida inicialmente pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) da USP e já foi adotada em outras partes do mundo como Valência (Espanha), pela fabricante de papel Nesa. Outras plantas estão sendo construídas na União Européia.

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Revista Conhecimento & Inovação
ISSN 1984-4395

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